"De tanto ver triumphar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver prosperar a deshonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Ruy Barbosa

domingo, 29 de maio de 2016

Blogueiros chapa branca - editorial do Estadão

Depois de três dias de discussões sobre a crise do País, os participantes do 5.º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais – que contou com a participação da presidente afastada Dilma Rousseff numa de suas sessões – lançaram uma carta aberta à sociedade cujo teor parece ter sido inspirado em escrachadas patuscadas da televisão ou em chanchadas do cinema.

Escrita com o objetivo de denunciar o “golpe parlamentar” que afastou Dilma do poder e denunciar a ilegitimidade do governo do presidente interino Michel Temer, a carta, escrita em português precário – meio parecido com o que a presidente afastada fala, o que mostra que fez escola –, raciocínio tortuoso, viés ideológico e aversão à verdade, é mais do que um besteirol. Retrata de modo inequívoco o nível de indigência intelectual e moral dos integrantes da máquina de difamação que, sustentada por dinheiro público durante os 13 anos e meio do lulopetismo, se especializou em contar mentiras, plantar boatos, caluniar adversários políticos do PT e agredir moralmente repórteres e colunistas dos grandes jornais, sempre sob o pretexto de defender a “democratização da comunicação”.

A carta aberta começa acusando o Supremo Tribunal de Federal de ser um “poder acovardado”. Prossegue afirmando que o governo Dilma teria subestimado a força dos jornais, revistas e televisões “a serviço do conservadorismo”. Alega que Temer é elitista e machista, por não ter indicado nenhuma mulher, negro ou trabalhador para seu Ministério. Diz que ele destruirá as empresas estatais do País e entregará os recursos do pré-sal “às multinacionais do petróleo, recolocando o Brasil na órbita dos Estados Unidos”. Criticam, ainda, a demissão do presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que havia sido nomeado por Dilma dias antes da votação da abertura do impeachment pelo Senado. Aparelhada pelo PT, a empresa é uma tevê estatal disfarçada de televisão pública que foi criada em 2007 pelo governo Lula. Apesar de ter consumido mais de R$ 3,6 bilhões de recursos federais nos últimos anos, só conseguiu chegar a 1% da audiência duas vezes – quando mostrou um documentário sobre o Rio Reno e quando apresentou um filme de Mazzaropi. Nos demais dias, a EBC – que emprega a peso de ouro alguns participantes do 5.º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais – jamais saiu do traço.

A carta aberta também apoia ocupações de prédios públicos, como forma de “resistência contra o governo golpista”. Propõe ampla cobertura das manifestações contra Temer, das ações que permitam o retorno de Dilma ao Palácio do Planalto e das notícias que mostrem mulheres, jovens negros, militantes da reforma agrária e povos indígenas como “vítimas mais imediatas da escalada autoritária”.

Dois parágrafos da carta aberta merecem destaque. Um é o que afirma que o governo interino priorizará a “comunicação chapa branca, favorecendo a Globo na distribuição de verbas públicas e usando dinheiro do contribuinte para salvar organizações moribundas, como a editora Abril e o ex-Estadão” (sic), cujos proprietários, além de participar do “sistema corrupto de poder que tenta se perpetuar sob a presidência de Temer”, seriam “beneficiários de contas suspeitas em paraísos fiscais”. O outro afirma que o golpe faz parte de uma “estratégia de recolonização do continente e de desestabilização dos Brics” – plano esse que teria entre seus líderes o titular do Ministério das Relações Exteriores, José Serra, que é classificado como “conspirador parceiro da Chevron”.

Na parte final da carta, os blogueiros são taxativos. “Não daremos trégua à Globo, a Temer, aos traidores que se dizem sindicalistas, nem aos tucanos e empresários da Fiesp, que agiram a serviço do golpismo. Resistiremos nas ruas e nas redes”, prometem eles. Se alguém deve recear essas ameaças certamente são os redatores de programas de humorismo da televisão. Agora eles têm nesses blogueiros e ativistas fortes concorrentes.

domingo, 1 de maio de 2016

Carta aberta ao Jô Soares

CARO JÔ SOARES, 

Foi comovente seu discurso de ontem. A voz embargada e o choro contido foram um espetáculo à parte. Sua defesa irascível à atitude do José de Abreu e à liberdade de ir e vir do Chico Buarque foi quase convincente. 

Confesso, Jô, que eu lhe admirava. Há anos atrás, na minha época de estudante secundarista, mantinha-me acordado para assistir o seu programa. Admirava-o por considerá-lo um homem de inteligência ímpar. Esse mesmo motivo, hoje, me faz desprezá-lo, afinal, o socialismo só pode ser defendido por 2 motivos: ignorância ou mau-caratismo. Considerando a sua inegável inteligência, só nos resta a segunda opção. 

"Feliz o país que tem Chico". Será? Será, hoje, o Brasil um lugar feliz? Fale de felicidade para os enfermos do SUS, para as vítimas da violência, para os desempregados pela política econômica desastrosa. Fale de felicidade para os policias presos por cumprirem seu dever, para os professores agredidos em sala de aula, para os médicos que choram (de verdade) por não terem meios de salvar seus pacientes nos rincões do país. 

Feliz o país que tem Mário, o soldado explodido pela guerrilha de Dilma Rousseff, que não pestanejou ao entrar na frente do carro bomba para cumprir seu dever. Feliz o país que tem Amado, artista do povo que, mesmo preso pelo regime militar, disse verdade sobre o cárcere, sem demagogia. Feliz o país que tem Carlos, Brilhante, coronel que levou à cabo sua missão, defendeu a democracia e hoje é condenado (sem processo) pelos bandidos de outrora. 

Se o "cansaço" de José de Abreu o habilita para cuspir na cara de cidadãos, o que o cansaço do povo nos habilita a fazer? O povo CANSOU. Cansou de ser enganado, espoliado, manipulado. Cansou de ser pacífico, cansou da vida de gado, de pão e circo. O povo acordou, Jô, e vocês sabem disso. 

Feliz é o povo que sabe que o Brasil é NOSSO e que luta, com todas as forças para que ninguém tire de nós. Feliz o país que é, sim, intolerante com os falsos tolerantes, com os hipócritas, com os vendidos, com os manipuladores. Feliz o país que sabe que Chicos, Josés e Jôs não trazem felicidade nenhuma. Hoje, estamos nos transformando em um país feliz. Um país com um povo consciente, que não depende dos falsos intelectuais, bobos da corte, para dizer-nos como pensar. A época de vocês passou, mas não precisa chorar, Jô. Como diria a inesquecível Ingrid Bergman: Vocês sempre terão Paris.

Felipe Fiamenghi

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Mulheres que amamos


Sara Sampaio, supermodelo portuguesa, 1,75m, nascida no Porto, há 24 anos, angel da Victoria's Secret. Beleza da terrinha encantando o mundo.

Elvira Cupelo, uma amostra do que a esquerda faz

O relato abaixo está no site Ternuma e descrito em detalhes, nas páginas 238 a 243, do livro Combate nas Trevas, do esquerdista Jacob Gorender. 

Na Wikipedia encontramos:

"Nascida em Sorocaba, Elvira Cupelo era namorada de Antonio Maciel Bonfim, o Miranda, líder do Partido Comunista Brasileiro (PCB) ao tempo da revolução comunista de 1935.

Suspeitando que Elza, codinome atribuído a Elvira, à época com talvez 16 anos, tivesse traído o movimento, Luis Carlos Prestes manda matá-la, o que ocorre em começos de 1936. O assunto foi objeto de livro, intitulado Elza, a garota, do jornalista Sérgio Rodrigues, publicado em 2009 pela editora Nova Fronteira. Segundo o autor do livro, em especial graças a depoimentos da ex-militante do PCB Sara Becker, que tinha a mesma idade que a moça, Elza ou Elvira era semianalfabeta e não tinha noção do que era o partido ou a sua rebelião. No dia 20 de fevereiro de 1936, ela foi estrangulada com um fio de varal por Francisco Natividade Lira (Cabeção ou Lira Cabeção). Seu corpo foi enterrado no quintal de uma casa em Guadalupe, na época zona rural do Rio de Janeiro. Em 1940, a Polícia encontrou as ossadas com base em cartas de Prestes, sua mulher Olga Benario e depoimentos de réus confessos que identificaram o local do crime."

----------------

"Desde menina, Elvira Cupelo Colônio acostumara-se a ver, em sua casa, os numerosos amigos de seu irmão, Luiz Cupelo Colônio. Nas reuniões de comunistas, fascinava-se com os discursos e com a linguagem complexa daqueles que se diziam ser a salvação do Brasil. Em especial, admirava aquele que parecia ser o chefe e que, de vez em quando, lançava-lhe olhares gulosos, devorando o seu corpo adolescente. Era o próprio Secretário-Geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), Antonio Maciel Bonfim, o “Miranda”.

Em 1934, então com 16 anos, Elvira Cupelo tornou-se a amante de “Miranda” e passou a ser conhecida, no Partido, como “Elza Fernandes” ou, simplesmente, como a “garota”. Para Luiz Cupelo, ter sua irmã como amante do secretário-geral era uma honra. Quando ela saiu de casa e foi morar com o amante, Cupelo viu que a chance de subir no Partido havia aumentado.

Entretanto, o fracasso da Intentona, com as prisões e os documentos apreendidos, fez com que os comunistas ficassem acuados e isolados em seus próprios aparelhos.

Nos primeiros dias de janeiro de 1936, “Miranda” e “Elza” foram presos em sua residência, na Avenida Paulo de Frontin, 606, Apto 11, no Rio de Janeiro. Mantidos separados e incomunicáveis, a polícia logo concluiu que a “garota” pouco ou nada poderia acrescentar aos depoimentos de “Miranda” e ao volumoso arquivo apreendido no apartamento do casal. Acrescendo os fatos de ser menor de idade e não poder ser processada, “Elza” foi liberada. Ao sair, conversou com seu amante que lhe disse para ficar na casa de seu amigo, Francisco Furtado Meireles, em Pedra de Guaratiba, aprazível e isolada praia da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Recebeu, também, da polícia, autorização para visitá-lo, o que fez por duas vezes.

Em 15 de janeiro, Honório de Freitas Guimarães, um dos dirigentes do PCB, ao telefonar para “Miranda” surpreendeu-se ao ouvir, do outro lado do aparelho, uma voz estranha. Só nesse momento, o Partido tomava ciência de que “Miranda” havia sido preso. Alguns dias depois, a prisão de outros dirigentes aumentou o pânico. Segundo o PCB, havia um traidor. E o maior suspeito era “Miranda”.

As investigações do “Tribunal Vermelho” começaram. Honório descobriu que “Elza” estava hospedada na casa do Meireles, em Pedra de Guaratiba. Soube, também, que ela estava de posse de um bilhete, assinado por “Miranda”, no qual ele pedia aos amigos que auxiliassem a “garota”. Na visão estreita do PCB, o bilhete era forjado pela polícia, com quem “Elza” estaria colaborando. As suspeitas transferiram-se de “Miranda” para a “garota”.

Reuniu-se o “Tribunal Vermelho”, composto por Honório de Freitas Guimarães, Lauro Reginaldo da Rocha, Adelino Deycola dos Santos e José Lage Morales. Luiz Carlos Prestes, escondido em sua casa da Rua Honório, no Méier, já havia decidido pela eliminação sumária da acusada. O “Tribunal” seguiu o parecer do chefe e a “garota” foi condenada à morte. Entretanto, não houve a desejada unanimidade: Morales, com dúvidas, opôs-se à condenação, fazendo com que os demais dirigentes vacilassem em fazer cumprir a sentença. Honório, em 18 de fevereiro, escreveu a Prestes, relatando que o delator poderia ser, na verdade, o “Miranda”.

A reação do “Cavaleiro da Esperança” foi imediata. No dia seguinte, escreveu uma carta aos membros do “Tribunal”, tachando-os de medrosos e exigindo o cumprimento da sentença. Os trechos dessa carta de Prestes, a seguir transcritos, constituem-se num exemplo candente da frieza e da cínica determinação com que os comunistas jogam com a vida humana:

“Fui dolorosamente surpreendido pela falta de resolução e vacilação de vocês. Assim não se pode dirigir o Partido do Proletariado, da classe revolucionária.” … “Por que modificar a decisão a respeito da “garota”? Que tem a ver uma coisa com a outra? Há ou não há traição por parte dela? É ou não é ela perigosíssima ao Partido…?” … “Com plena consciência de minha responsabilidade, desde os primeiros instantes tenho dado a vocês minha opinião quanto ao que fazer com ela. Em minha carta de 16, sou categórico e nada mais tenho a acrescentar…” … “Uma tal linguagem não é digna dos chefes do nosso Partido, porque é a linguagem dos medrosos, incapazes de uma decisão, temerosos ante a responsabilidade. Ou bem que vocês concordam com as medidas extremas e neste caso já as deviam ter resolutamente posto em prática, ou então discordam mas não defendem como devem tal opinião.”

Ante tal intimação e reprimenda, acabaram-se as dúvidas. Lauro Reginaldo da Rocha, um dos “tribunos vermelhos”, respondeu a Prestes:

“Agora, não tenha cuidado que a coisa será feita direitinho, pois a questão do sentimentalismo não existe por aqui. Acima de tudo colocamos os interesses do P.”

Decidida a execução, “Elza” foi levada, por Eduardo Ribeiro Xavier (“Abóbora”), para uma casa da Rua Mauá Bastos, Nº 48-A, na Estrada do Camboatá, onde já se encontravam Honório de Freitas Guimarães (“Milionário”), Adelino Deycola dos Santos (“Tampinha”), Francisco Natividade Lira (“Cabeção”) e Manoel Severino Cavalcanti (“Gaguinho”).

Elza, que gostava dos serviços caseiros, foi fazer café. Ao retornar, Honório pediu-lhe que sentasse ao seu lado. Era o sinal convencionado. Os outros quatro comunistas adentraram à sala e Lira passou-lhe uma corda de 50 centímetros pelo pescoço, iniciando o estrangulamento. Os demais seguravam a “garota”, que se debatia desesperadamente, tentando salvar-se. Poucos minutos depois, o corpo de “Elza”, com os pés juntos à cabeça, quebrado para que ele pudesse ser enfiado num saco, foi enterrado nos fundos da casa. Eduardo Ribeiro Xavier, enojado com o que acabara de presenciar, retorcia-se com crise de vômitos.

Perpetrara-se o hediondo crime, em nome do Partido Comunista.

Poucos dias depois, em 5 de março, Prestes foi preso em seu esconderijo no Méier. Ironicamente, iria passar por angústias semelhantes, quando sua mulher, Olga Benário, foi deportada para a Alemanha nazista.

Alguns anos mais tarde, em 1940, o irmão de “Elza”, Luiz Cupelo Colônio, o mesmo que auxiliara “Miranda” na tentativa de assassinato do “Dino Padeiro”, participou da exumação do cadáver. O bilhete que escreveu a “Miranda”, o amante de sua irmã, retrata alguém que, na própria dor, percebeu a virulência comunista:

“Rio, 17-4-40″
Meu caro Bonfim,
Acabo de assistir à exumação do cadáver de minha irmã Elvira. Reconheci ainda a sua dentadura e seus cabelos. Soube também da confissão que elementos de responsabilidade do PCB fizeram na polícia de que haviam assassinado minha irmã Elvira. Diante disso, renego meu passado revolucionário e encerro as minhas atividades comunistas.Do teu sempre amigo, Luiz Cupelo Colônio”.

domingo, 17 de abril de 2016

Chegou a hora!


Chegou a hora. Hoje o Brasil vai saber se os representantes que elegeu, de fato, o representa. Todas as pesquisas, mesmo aquelas feitas pelos suspeitíssimos Datafolha e Ibope mostram que o governo é desprestigiado por 65 a 70% dos brasileiros. Se levarmos em conta os que acham o governo apenas razoável, a soma alcança quase 90%. Ou seja, apenas 1 em cada 10 brasileiros considera que ainda existe governo no Brasil.

Diante disso, é natural que as sondagens apontem um "sim" ao impeachment na faixa de 365 deputados, o que significa algo em torno de 70% do plenário da Casa. Bem mais que os 66% necessários para autorizar a abertura do processo no Senado, e compatível com o número de descontentes com o governo.


Se isso se confirmar na tarde/noite de hoje, a Câmara estará reafirmando o que disse o então presidente da Câmara, deputado Ibsen Pinheiro, no impeachment de Collor: "esta Casa faz o que o povo quer". E isso é muito bom. É sinal de que os deputados são sensíveis à voz das ruas, e, afinal cumprem o papel para o qual foram nomeados.

Não bastassem os motivos apontados na denúncia, mais do que evidentes da necessidade de se defenestrar essa organização criminosa do poder, existem as questões ecônomicas, financeiras, fiscais, políticas e institucionais a turbinar o impeachment. Ao que tudo indica, a maioria da Casa não ignora nada disso e vai responder positivamente aos anseios da maioria da população.

Quero crer que a comemoração que, eventualmente, acontecerá hoje, será a de se criar uma nova expectativa, e uma nova esperança de reverter o quadro ruinoso no qual o governo e os petistas nos meteram. E é nisso que o novo governo deverá se concentrar: criar condições para reverter o desemprego, reduzir a inflação, parar a sangria da corrupção, acabar com o compadrio com grandes empresários, melhorar o ambiente de negócios, ampliar os serviços providos pela máquina pública e ajudar a promover o desenvolvimento.

Penso que temos todo o potencial necessário para, em pouco tempo, voltar a crescer, e a fazer do Brasil um lugar melhor para os brasileiros e para todos os que aqui viverem. É só fazer TUDO ao contrário do que o PT fez.

E vamos pra Copacabana, acompanhar a votação e, se Deus quiser, celebrar a vitória do "sim" ao final desse (des)governo.


Alvíssaras

por Mario Vitor Rodrigues, escritor

Se me fosse concedida a chance, aconselharia aos brasileiros que anotassem com muito zelo duas datas para a posteridade: 26/10/2014 e 17/04/2016. Desta forma, quando suas memórias já estivessem carcomidas pelo tempo, consultas ainda possibilitariam contemplar ajuizadamente a saga dantesca que se encerra hoje.

A primeira marca a reeleição de Dilma Rousseff, enquanto a segunda coroa o derradeiro desabafo de um país há 14 meses atônito, na prática imobilizado pelos seguidos escândalos de corrupção, sem falar nas decorrentes crises ética, política, e econômica, as mais graves em sua história.

Às vésperas do segundo julgamento na Câmara dos Deputados de um presidente democraticamente eleito em 25 anos, eis que o país não se esquiva do frisson, mas vive com intensidade absoluta a expectativa cada vez maior por um desfecho que o liberte do estupor.

Assim, deixando de lado propagandas e falsos alaridos de parte a parte, as projeções inevitavelmente acabam toureando o ambiente, provocando excitação entre aqueles esperançosos na punição de Dilma, e desânimo por parte dos governistas e militantes de esquerda. Não é para menos.

Se levarmos em conta o cenário indicado pelas projeções de dois dos maiores jornais do país - O Globo e O Estado de São Paulo - o governo petista não apenas será destituído, mas em momento algum, durante a votação de hoje, amealhará motivos que corroborem o desafiante otimismo que teimam em esbanjar.

Logo de saída, por exemplo, não poderá ser mais sintomático o placar em Roraima, estado designado a iniciar a votação: 7 a 1 em favor do SIM.

A partir de então, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mesmo intercalados, somente tornarão mais difícil a sobrevida do atual mandato presidencial, e quando Amazonas, Rondônia e Goiás já tiverem votado, tudo indica que o volume de votos favoráveis ao impeachment será quatro vezes maior em comparação ao de seus detratores.

Tal proporção diminuirá quando chegar a vez de São Paulo, mas, convenhamos, o triplo continua sendo uma vantagem confortável, e o alardeado efeito cascata, motivo de celeuma por conta do efeito que poderia causar nos deputados indecisos, finalmente poderá ser comprovado.

Ainda segundo as projeções, caberá a algum parlamentar de Minas o voto que ultrapassará a barreira das três centenas, e então muito provavelmente a balbúrdia já terá tomado conta da Casa, como o episódio Collor de Mello nos ensinou.

Ironia das ironias, o voto que promete determinar o fim da era petista deve mesmo sair de Pernambuco ou da Bahia. Em resumo, caberá ao Nordeste, há décadas cantado em verso e prosa como celeiro de votos petistas, o fardo de impedir a presidente. Melhor dizendo, a honra.

A impopularidade e a fragilidade política do governo Dilma impressionam, porém nada resume melhor a sua esqualidez moral, quero dizer, a esqualidez moral do PT, do que as grotescas propostas feitas a parlamentares em troca de apoio contra o impeachment.

Esqueçamos emendas parlamentares, falo aqui de milhões provenientes de restos a pagar dos orçamentos de 2014 e 2015. Falo aqui, por exemplo, de uma oferta de 6 milhões de reais a um parlamentar. Exato, meia dúzia. Por um voto.

Dilma está descontrolada, assim como Lula e o Partido dos Trabalhadores. Jamais imaginaram sua azeitada máquina de fazer dinheiro, um tal de Brasil, de uma hora para outra disposta a cobrar anos de lavagem cerebral, disparates fiscais, e falcatruas financeiras destinadas a falsear a democracia para eternizá-los no poder.

Tem razão quem aposta em um Brasil pouco diferente sem o PT no poder. De fato, pelo menos em um primeiro momento, não deixaremos de ser uma nação refém de seus próprios algozes. E basta ver a quantidade de pessoas que ainda levam Marina Silva a sério para constatar este fato.

Mas first things first, como gostam de dizer os gringos. Se o simples afastamento do PT não será capaz de fazer o país mudar, sua continuidade tornaria esta tarefa impossível.

Que o impedimento de Dilma, e por conseguinte a libertação desta torpe ditadura de esquerda, sirva de aprendizado para todos nós. Não podemos mais nos permitir certas escolhas.

E que seja um marco, o início de uma nova era, que tenhamos adquirido o hábito de prestar mais atenção ao nosso próprio destino, dispensando todo apoio possível aos vários Moros e Deltans Brasil a fora.

O futuro não será fácil, o debate político está apenas começando, felizmente muita sujeira ainda resta para ser descoberta, e o estrago na economia levará tempo para ser recuperado.

Tudo bem, mas hoje é dia de festa.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

A República num quarto de hotel e o muro que a divide. Por José Nêumanne Pinto

Em palácio transformado em brechó fuleiro, Dilma compra votos contra impeachment, como Lula em quarto de hotel

Ao se deparar com a reação popular à crise ética, provocada pelo assalto aos cofres públicos, feito por seus correligionários e aliados, a presidente Dilma Rousseff passou a utilizar a sede do poder republicano como se este fosse estádio de assembleia sindical. Para ter êxito nessa transformação, pediu ajuda a seu padrinho, o mais bem-sucedido dirigente de sindicato da História do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. E, ao som de palavras de ordem, berradas de forma agressiva e alucinada, o Palácio do Planalto foi por ela, mais recentemente, transformado em refúgio de guerrilheiros da esquerda armada, àquela época chamado de aparelho.

Diante da perspectiva cada vez mais ameaçadora do impeachment anunciado, ela agora passou a encenar uma versão contemporânea do pátio do templo de Jerusalém, do qual, conforme o Evangelho, Jesus Cristo expulsou a chicotadas os vendilhões. Assim Dilma agora age, diuturnamente e noturnamente, advérbios de tempo dos quais tem abusado por seu exacerbado amor à ênfase, que considera inestimável figura de retórica para dissuadir fascistas, golpistas, coxinhas, zelitistas e que tais.

Este, afinal, é o efeito maligno para o cidadão e as instituições provocado pela compra à luz do sol de apoio no processo de seu afastamento da chefia do desgoverno. Tal comércio, praticado num brechó fuleiro, é ilícito e daninho às instituições republicanas. Pois burla a lei neste episódio grotesco, humilhando a Nação, conspurcando a História do País e também o capítulo reservado a seu Partido dos Trabalhadores (PT), que levou o primeiro operário braçal e a primeira mulher à Presidência. É, por isso, condenável por todos os ângulos pelos quais seja visto.

Primeiramente, a moeda sonante com que ali os dilmistas compram a honra e a consciência dos deputados federais que decidirão se o Senado pode, ou não, abrir processo contra a “presidenta” resulta do recolhimento de impostos arrecadados do cidadão comum. Com a agravante de que este vive a conjuntura perversa da mais dolorosa crise econômica de todos os tempos, com 10 milhões de trabalhadores amargando o desemprego e, portanto, a falta de renda para sustentar a família, depois que o erário foi dilapidado pelos novos donos da República. E se lhes acrescentam mais 200 diariamente. Isso resulta em estatísticas apavorantes: as 100 mil lojas falidas em 2015, as 4,4 mil indústrias paulistas paradas no mesmo período, a renda declinante a rondar o lar de todos os cidadãos, sejam eles patrões ou empregados, contribuintes ou isentos. E tudo isso foi causado por sua política econômica estroina, populista e irresponsável.

Há, em segundo lugar, uma agravante institucional de sérias consequências para a higidez do Estado Democrático de Direito, sob cuja égide a sociedade brasileira pretende conviver. Esta quer é mantê-lo com plena liberdade e mais decência. Segundo se narra do Planalto Central do País, a cúpula palaciana não está comprando apenas o voto de bancadas ou parlamentares a preços ascendentes, por causa da evidência cada vez maior do esfacelamento do desgoverno vigente. Pois o bazar de pulgas morais instalado nos gabinetes do palácio e num quarto de hotel ao lado também está pagando caro pela ausência do votante.

Ao contrário do que se diz – que será necessário a Dilma e seus vassalos conseguirem a adesão de 171 deputados federais na votação final em plenário -, é obrigação de seus adversários (para atender à vontade de, pelo menos, 61% dos patrícios) obterem para a causa do impeachment 342 votos. Quer dizer: para fugir da decisão final de interrupção de seu mandato obtido nas urnas Dilma e o PT precisam que 171 votem contra, declarem abstenção ao votarem ou, em último caso, se ausentem do plenário na hora do voto. Isso quer dizer que quem aceita essa barganha imunda pode imolar sua carreira em troca de dinheiro vivo ou algum emprego público de qualquer escalão. Isso já ocorreu no caso anterior, protagonizado por Fernando Collor de Mello, em 1992: a grande maioria dos que tentaram mantê-lo no poder não mais se elegeu. Mas quem se abstiver ou faltar produzirá o mesmo resultado e cometerá o mais grave dos crimes cívicos: o de faltar à decisão mais importante de seu mandato e da História recente do Brasil. Pois assim jogará no lixo da História a oportunidade de honrar sua representação. Deixará seu representado órfão de representação na democracia que Dilma e seus seguidores juram defender a todo custo.

Os defensores ardorosos da escolha do eleitor, ainda que este tenha sido traído pelo eleito, como é o caso, dizem-se de esquerda e defensores da vontade popular. Mas a experiência mostra que eles devotam imenso desprezo à velha democracia burguesa, inventada pelos barões que a impuseram a João Sem Terra. E aprimorada pelos pais fundadores da Revolução Americana e pelos jacobinos e girondinos na França setecentista. Isso explica o desdém que demonstram ter pelo apego à lei e à ordem. Assim revelam, sobretudo, seu desprezo pela necessidade do convívio pacífico entre discordantes.

Na última vez que ocorreu escândalo de corrupção quase similar a este, no chamado mensalão, perdeu-se a oportunidade de depor Lula para evitar que ele se tornasse um mártir da causa do povo. E este se reelegeu apelando para a divisão dos brasileiros entre “nós” e “eles”, direita e esquerda, povo e zelite, perseguidos e perseguidores, explorados e exploradores, subalternos e tiranos. Agora, mortadelas e coxinhas… Esta divisão impatriótica e maligna expõe a risco a unidade nacional, investindo na calhorda e covarde demagogia da dicotomia entre quem sustenta a máquina pública e quem por ela é sustentado.

O aprofundamento dela é que tornou necessário erguer o muro da cizânia na festa da celebração da independência no último 7 de setembro. E faz agora inevitável o mesmo equipamento para impedir que o ódio mútuo entre quem defende o impeachment para por fim à crise e quem o renega em nome da obediência à vontade manifesta do eleitor há um ano e meio produza uma tragédia indesejável para os todos. Uma República que convive com a compra de apoio particular com o escasso dinheiro de todos e com a construção por presidiários de uma parede que divide duas metades inconciliáveis não é digna da denominação latina que carrega. Pois pode ser tudo, menos uma “coisa pública”.


(*) José Nêumanne Pinto é jornalista, poeta e escritor.

sábado, 9 de abril de 2016

Estadão: Debandada

O PT tenta apresentar-se como perseguido político. A enxurrada de escândalos, denúncias, investigações e condenações envolvendo próceres petistas seria resultado de uma sórdida campanha levada a cabo pelos inconformados com a revolução social promovida por Luiz Inácio Lula da Silva desde sua posse na Presidência da República em 2003. Tal versão, no entanto, não tem qualquer suporte nos fatos. A realidade é bem mais caseira – simplesmente o partido começa a sentir as consequências de seus atos imorais e ilegais, que vão sendo revelados à medida que avançam as investigações da Operação Lava Jato. Num Estado Democrático de Direito, andar fora da lei tem seu preço – jurídico e político.

O discurso de vítima do PT fica completamente desmascarado diante da vergonha dos próprios petistas com a legenda utilizada largamente por seus dirigentes em benefício pessoal. Se fosse verdade a existência de uma campanha de perseguição, a natural reação de seus membros seria de orgulho e defesa da causa petista. Não é isso, porém, o que se vê. Os políticos petistas estão em debandada. Conforme noticiou o Estado, de meados do ano passado até o dia 2 de abril – fim do prazo legal para mudança partidária –, um terço dos prefeitos eleitos pelo PT no Estado de São Paulo deixou o partido. Nas eleições municipais passadas, o PT elegeu 72 prefeitos. Desse total, 24 já abandonaram a legenda.

Essa debandada não se deve a nenhum tipo de perseguição política. Sai quem se envergonha de um partido que renegou a ética na política, no discurso e na prática. Como ficou evidente aos olhos dos brasileiros – especialmente com as investigações da Operação Lava Jato, mostrando que o mensalão era coisa pequena diante do petrolão –, o partido de Lula não apenas se lambuzou com antigas práticas de corrupção, mas promoveu verdadeira revolução na arte de apropriar-se do público em prol do interesse particular – partidário e pessoal. Obviamente, além das complicações judiciais, esse modus operandi tem um alto preço político.

A doença petista não atingiu apenas prefeitos. O partido também perdeu 28% dos vereadores que tinha no Estado de São Paulo. Entre os 186 vereadores que saíram da legenda, havia nomes de destaque, que as lideranças partidárias esperavam ver como candidatos do PT na disputa por importantes prefeituras. Significativo desfalque deu-se em Carapicuíba, cidade com mais de 270 mil eleitores e governada há oito anos pelo PT. O atual presidente da Câmara de Vereadores, Abraão Junior, trocou o PT pelo PSDB, legenda pela qual pretende disputar as eleições de outubro para prefeito.

Boa parte dos prefeitos que abandonaram o PT governa pequenas ou médias cidades no Estado. Há, porém, exceções. Por exemplo, o prefeito Jorge Lapas, de Osasco – quinto maior colégio eleitoral de São Paulo, com 548 mil eleitores –, trocou a legenda petista pelo PDT. Na carta escrita para explicar sua desfiliação do partido, Lapas menciona o “momento delicado pelo qual o PT está passando no cenário nacional”, além da “desunião e fragilidade resultantes da disputa interna” no partido. É uma maneira até elegante de se referir aos problemas que, com suas práticas, o partido criou para si mesmo.

Leia o restante aqui

domingo, 3 de abril de 2016

O caminho é a Constituição, por FHC

O homem público nem sempre escolhe o momento em que é obrigado a atuar. Levado a opinar ou a decidir, não deve afastar-se de seus ideais nem pode desconhecer o contexto em que atua. Estamos confrontados com um processo desafiador.

Sempre fui cauteloso para endossar impeachments, porque se trata de mecanismo legal que anula uma decisão eleitoral majoritária. Procedi assim no caso do governo Collor. Só apoiei a tese depois de múltiplos indícios da existência de malfeitos.

O surgimento de um deles (caso do Fiat Elba), a paralisia do governo e o clamor das ruas foram decisivos para a aprovação do impeachment. Fui cauteloso porque temia o retrocesso institucional: a nova Constituição havia sido promulgada em data recente e ainda havia arroubos autoritários no ar.

Procedi de igual maneira quando da possibilidade de impeachment do então presidente Lula por causa do mensalão. Na época, alguns afirmaram que procedi na suposição de que, desmoralizado, ele seria inevitavelmente derrotado em sua tentativa de reeleger-se.

Má informação ou má-fé. Eu pensava na dimensão histórica: Lula tinha uma trajetória, era o primeiro líder sindical a chegar à Presidência. A acusação de “as elites” terem-no derrubado seria nódoa a pesar sobre a política brasileira por muito tempo, podendo até mesmo fraturar a sociedade.

Por que adotar outra atitude agora? É que o tempo revelou com nitidez o que antes era nebuloso. Para repetir palavras proferidas no Supremo Tribunal Federal em 2010 a respeito do mensalão: “uma organização criminosa se apossou do Estado”.

As práticas corruptas, reiteradas no petrolão, não se atêm a condutas pessoais, em si inaceitáveis. Trata-se da formação de um sistema que ligou governo, empresas e funcionários para eventual enriquecimento pessoal, mas principalmente para financiar partidos e campanhas eleitorais visando à manutenção do poder. É uma fraude à democracia, além de assalto ao Tesouro.

Sempre me referi à presidente Dilma respeitosamente. Não se trata, porém, do julgamento de condutas individuais, mas institucionais.

Ao endossar a trama pueril de que há um “golpe” e se dispor a abrigar em seu governo pessoa suspeita de reles corrupção pessoal, a presidente incorre na dúvida de obstrução da Justiça, qualquer que tenha sido sua intenção.

Isso reforça o sentimento favorável à abertura do impeachment na Câmara. Há outros indícios referidos na petição inicial a justificá-la, além das “pedaladas fiscais”. Aberto o processo, as provas devem ser julgadas pelo Senado.

O capítulo da Constituição que elenca os crimes de responsabilidade é amplo. O processo se desenrola no âmbito político, e não no estritamente jurídico. O próprio julgamento se dá no Congresso, e não nos tribunais.

Como fundamento moral para tudo isso se tem o deslize essencial: a corrupção da democracia sob os auspícios de governos petistas. Do ponto de vista político é disso que se trata, e não de imputações pessoais.

Para que se apreciem os argumentos probatórios de culpa, assim como os que poderiam levar à absolvição, aí, sim, o julgamento não pode ser meramente político, nem baseado na falta de popularidade. Daí a ampla defesa às imputações penais. E a decisão final caberá ao Senado sob o comando do presidente do STF.

A simples mudança de governo não resolverá os problemas nacionais. Estes requerem uma visão nova, a mudança das práticas político-eleitorais, bem como das políticas econômicas que nos levaram à recessão, ao desemprego e à desilusão.

Práticas essas resultantes da má condução do Estado pelo lulopetismo. Sob a retórica maniqueísta de que representariam o bem, enquanto as demais encarnariam o mal, o que se viu foi a formação de quadrilhas para assegurar o poder com a aquiescência de empresários e partidos. Nenhum avanço social necessita da corrupção como coadjuvante.

O poder democrático requer a divergência, o cotejo e o choque de opiniões, submetidos à regra de que as maiorias decidem os impasses, respeitadas as leis, inclusive o direito das minorias e das pessoas. A corrupção do Estado impede a aferição veraz e livre das maiorias eleitorais, que passam a ser formadas graças aos fluxos financeiros advindos da roubalheira institucionalizada.

Podem ter razão abstrata os que pedem eleições gerais já. Mas como fazê-las agora sem romper a Constituição? A renúncia é ato individual de vontade que foi respondido com um rotundo “não”! O caminho da anulação das eleições de 2014 pelo TSE deve continuar, mas ele pode ser objeto de recurso ao STF, o que retardaria a decisão.

Se essa ocorrer em 2017, prevalece o texto da Constituição, que prevê eleições do presidente pelo Congresso se o tempo de mandato a se completar for de dois anos ou menos. Se houver contestação apelando-se à legislação infraconstitucional que define a eleição indireta apenas no caso de faltarem até seis meses para o término do governo em causa, da mesma maneira caberá demanda protelatória junto ao STF.

A paralisia da ação governamental e a marcha cruel da crise econômica que desorganiza a sociedade impõem que se comece logo a reconstruir o futuro. Haverá líderes capazes de tal proeza? Só o tempo dirá.

Para isso precisaremos de um mínimo de consenso entre as forças e lideranças sociais e políticas, inclusive as até agora dominantes, afastados os que tenham comprometimento pessoal com os malfeitos que arruinaram o povo, as empresas e o Estado.

Nenhum compromisso para o futuro que esteja baseado no “cala-boca” das investigações (seus eventuais abusos devem ser corrigidos por decisões do Supremo) será capaz de reacender o que é essencial para nosso futuro: a competência na condução do Estado, a confiança e o apoio da sociedade. Sem maniqueísmo, sem salvacionismo e sem pretensões hegemônicas.

Listas, vídeos e passeatas

por José Padilha

No momento por que passa o país, o risco de virar massa de manobra de algum picareta profissional

Considere os seguintes enunciados e pergunte a si mesmo se são verdadeiros ou falsos:

1- Lula e o PT se apresentaram ao Brasil como guardiões da moralidade. Lula disse inclusive que no Brasil bandido vira ministro.

2- O PT apresentou quatro pedidos de impeachment contra FHC — sem base jurídica ou representação popular para tal. Hoje, o PT chama os pedidos de impeachment contra Dilma de golpe.

3- O PT votou contra o Plano Real, contra as metas de inflação e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal.

4- Apesar da importância das privatizações e do Proer, o PSDB e alguns de seus líderes obtiveram recursos ilegais para si próprios e para seu partido durante a administração desses processos. Também o fizeram usando informação privilegiada na compra e venda da dívida externa brasileira.

5- O ex-senador, ex-governador e ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo foi condenado a 20 anos de prisão pelo STF por ter montado, com a ajuda do marqueteiro Marcos Valério, um esquema de corrupção para financiar sua campanha ao governo de Minas Gerais.

6- O PT montou, sob a batuta de vários líderes históricos do partido e com a ajuda de Marcos Valério, um sistema de corrupção para comprar votos no Congresso Nacional. O sistema ficou conhecido como mensalão.

7- Vários autores do mensalão, inclusive José Dirceu e José Genoino, foram condenados pelo STF com base em provas e testemunhos que demonstram claramente que o esquema ocorreu. Alguns estão presos.

8- Lula, então presidente da República e principal beneficiário do mensalão, afirmou que o mensalão nunca existiu.

9- Faz tempo que a Petrobras e várias outras estatais são predadas por políticos e empreiteiros, que superfaturam contratos e desviam recursos para si mesmos ou para seus partidos. Isso ocorre pelo menos desde o governo Sarney.

10- Desde a primeira eleição de Lula à Presidência, líderes do PT, associados a políticos do PMDB, chefiam uma quadrilha formada por grandes empreiteiras e agentes financeiros. Juntos, desviaram comprovadamente mais de R$ 7,2 bilhões de estatais — dos quais R$ 2,9 bilhões já foram recuperados pela Lava-Jato. O esquema ficou conhecido como petrolão.

11- Lula e Dilma receberam volumosos recursos de caixa dois e de corrupção das empreiteiras do petrolão para suas campanhas presidenciais, via esquemas operados pelos “marqueteiros” João Santana e Duda Mendonça.

12- Conforme afirmou Delcídio Amaral, ex-líder do PT no Senado, em delação premiada homologada pelo STF, Erenice Guerra e Antonio Palocci comandaram uma operação de corrupção em Belo Monte que desviou mais de R$ 40 milhões para a vitoriosa campanha de Dilma e de Temer à Presidência e à Vice-Presidência da República.

13- Conforme delatou Delcídio Amaral, Aécio Neves recebeu propina de Furnas, uma subsidiária da Eletrobras.

14- Conforme delatou Delcídio Amaral, Dilma Rousseff, então presidente do Conselho de Administração da Petrobras, tinha pleno conhecimento do processo de aquisição da refinaria de Pasadena e de tudo o que este encerrava.

15- O TCU condenou 11 diretores da Petrobras a devolver US$ 792 milhões pelo prejuízo causado na compra da refinaria de Pasadena.

16- Apesar de não haver provas formais divulgadas, todas as campanhas de FHC, de Serra e de Aécio à Presidência receberam recursos de caixa dois.

17- Eduardo Cunha, atual presidente da Câmera dos Deputados, recebeu milhões de dólares em propina no Brasil e no exterior, como afirmam os delatores Fernando Baiano e Mario Góes e como comprovam documentos obtidos no exterior.

18- Apesar de não haver provas formais divulgadas, outros políticos implicados pela Lava-Jato e denunciados por Delcídio e/ou por empreiteiros — como Renan, Temer, Dirceu, Mantega, Mercadante, Aécio, Cabral e Sarney — participaram do petrolão ou de esquemas semelhantes.

19- Lula recebeu propina e favores das grandes empreiteiras envolvidas no petrolão e enriqueceu por conta disso. Ele usou laranjas e falsas palestras para fingir que isso não aconteceu.

20- Conforme afirmou Delcídio Amaral, Lula lhe pediu que comprasse o silêncio de Nestor Cerveró, testemunha-chave da Operação Lava-Jato.

21- O ministro Aloizio Mercadante ofereceu ajuda financeira à família de Delcídio e prometeu usar a influência política do governo para conseguir sua libertação na Justiça em troca de proteção a Dilma em sua delação.

22- Dilma nomeou Lula ministro para que ele tivesse foro privilegiado, ganhasse tempo e ficasse em posição de negociar um acordo de impunidade com outros políticos ameaçados pela Lava-Jato.

Veja o restante aqui

José Padilha é cineasta

sábado, 2 de abril de 2016

Carta aberta a Wagner Moura, por Renata Barreto

"Caro Wagner Moura, senta que lá vem textão.

No seu filme de maior sucesso, o Tropa de Elite, me lembro de quando há uma passagem em que Capitão Nascimento entrega uma granada ao "05" que havia dormido durante uma explicação:

- Senhor Zero Cinco!
- Sim, senhor!
- Tenha a bondade... (e lhe entrega a granada destravada). Senhor zero-cinco, se o senhor deixar essa granada cair, o senhor vai explodir o turno inteiro! O senhor vai explodir seus colegas, o senhor vai explodir meus auxiliares, o senhor vai me explodir! O senhor vai dormir seu zero-cinco?
- Não, senhor!
- Estamos todos confiando no senhor!

Essa passagem me faz lembrar da situação atual do Brasil, só que dessa vez, quem está dormindo é você, a granada é o Brasil e o Capitão Nascimento às avessas é o governo do PT. A granada está na sua mão, junto com a de vários outros artistas e defensores da "democracia", ao dizer que manobra prevista em constituição é um golpe na tentativa revanchista de antecipar 2018.

Você ainda diz que tem feito inúmeras críticas públicas ao governo nos últimos 5 anos, ao mesmo tempo que diz que "se espanta com o ódio cego por um governo que tirou milhões de brasileiros da miséria e deu oportunidades nunca antes vistas para os pobres do país". Você mesmo entende que em nome dessas conquistas, o PT montou um plano de poder. E é aí que você age como o 05 que dormiu numa aula importante e perdeu o fio da meada: Era tudo uma grande mentira.

O que o PT fez não foi tirar milhões de brasileiros da miséria ou ter avanços sociais porque implementaram coisas novas, foram responsáveis, atraíram investimentos com sua credibilidade ou qualquer coisa do tipo. Não. Eles aproveitaram uma onda positiva da economia brasileira para expandir os benefícios sociais sem pensar que esse ciclo poderia acabar, o dinheiro iria sumir e as irresponsabilidades nas áreas fiscal e monetária chegariam mais tarde penalizando justamente àqueles que diziam defender. Essa conta que chegou não é uma surpresa, embora a maioria da esquerda ainda acredite que existe almoço grátis. A recessão que nos assola e que ameaça todas essas conquistas ganhas à duras penas é culpa deste governo que, inclusive, negou até onde pode que havia uma crise e, até hoje, não fez NADA para mudar esse destino. Estão mais preocupados mesmo em não perder o poder.

Você fala que não há crime de responsabilidade provado contra Dilma, mas há tantos motivos quanto há desculpas esfarrapadas como a sua para defendê-la, mesmo que pague de isento na questão da corrupção. Não só Dilma cometeu fraudes com as pedaladas fiscais, como abertamente tenta obstruir a justiça ao indicar Lula como ministro. Além do processo de Impeachment já instaurado, há outros sendo protocolados e ainda quatro processos em curso correndo no TSE. Dilma é tão suja quanto o partido do qual faz parte, mesmo que não tenha aparecido na tal lista da Odebrecht. Conivência, manipulação e ajuda à bandidos é mais do que motivo para tirá-la de seu cargo.

Você fala que eu, por ser contra a corrupção, quero tirar Dilma e ter um país governado por Temer, mas quem votou nele foi você junto com os outros 54 milhões brasileiros que esquecem que vice faz pate da chapa. De uma hora para outra, a velha aliança com o PMDB se tornou um problema. Infelizmente, temos que trabalhar com a realidade e, Temer, mesmo sendo de um partido que dança conforme a música e gruda como um parasita em quem estiver mais propenso a ser vitorioso, é melhor que a incompetente Dilma que você defende e o partido tem um plano econômico que poderia mesmo ser benéfico ao país. É a melhor solução? Claro que não. Mas é o que tem pra hoje.

Também não quero Eduardo Cunha na presidência da Câmara, nem Renan Calheiros no Senado, não quero Dirceu sendo aclamado como herói do povo brasileiro, Genoíno com pena perdoada por Indulto de Natal (coisa de Dilma, por sinal), político sem vergonha que desvia dinheiro de merenda de criança carente, deputado com dólar na cueca, estatais dilapidadas e tantos outros escândalos de corrupção que fazem o nosso país ser motivo de chacota internacional. Mas para isso é preciso começar de algum lugar.

Sinto saudades da época que o admirava como artista e como pessoa, com filmes que nos faziam pensar justamente como o problema do Brasil é todo o sistema e como lidamos com ele. Deixar como está apenas porque é mais fácil ou menos doloroso, é ser conivente não só com os absurdos cometidos em nome deste plano de poder, quanto dar aval a destruição da economia do país, acreditando que unicórnios existem e as contas não vão chegar.

Em vez de dizer que o problema é o espetáculo midiático em torno da operação Lava-Jato, mídia essa a qual você faz parte e ajuda a propagar direta ou indiretamente, mobilize-se para garantir que o pós-Impeachment seja mais justo, cobrando devidamente de todos os políticos aquilo que se comprometeram, continuando a exigir a investigação dos políticos corruptos que ainda estiverem soltos, seja de qual partido for.

Esse é meu compromisso e, missão dada é missão cumprida. O senhor é um fanfarrão."

Renata Barreto é economista e já calou o Tico Santa Cruz

segunda-feira, 28 de março de 2016

A improvável Revolução de Pessimildo

por Renan Santos, coordenador do MBL.

O fenômeno responsável pela queda de Dilma Rousseff encontra alguma similaridade com outras ocorrências mundo afora, mas também é único. A crise de representatividade política, a ojeriza ao establishment, os movimentos descentralizados e o uso da política em rede são fatores comuns, mas não explicam de maneira acurada o momento atual.

Antes de tudo, nosso movimento representa uma rearticulação de setores médios da nossa sociedade, que se encontravam dispersos em meio a um mar de informações e anseios conflitantes, a que esses setores se mostravam incapazes de dar expressão.

O aparelhamento de instâncias representativas da sociedade civil, tais como a OAB, sindicatos, entidades estudantis e igrejas, determinou o isolamento político do cidadão médio, que, ensimesmado, resmungava consigo mesmo e para os próximos seu desconforto com a corrupção, a taxação, os impostos escorchantes, os serviços públicos pífios — em suma, o “estado das coisas”.

Surgia ali o “Pessimildo”, o brasileiro médio que representava 40% dos votos em todas as eleições presidenciais desde 2006, mas que era incapaz de reunir dez pessoas numa praça para se fazer ouvir. Pior: era esconjurado em verso e prosa por Lula em sua cantilena anticlasse média, carinhosamente convertida em “elite branca, de olhos azuis, como o capeta encarnado, suposto empecilho no caminho da glória, entre copas do mundo, olimpíadas e ufanismos.

Pessimildo lutava uma guerra sem quartel. Votava em gente que tinha nojo de seus valores; era chamado de burro, reacionário, chato e cafona. Seus filhos aprendiam que Pessimildo era uma categoria histórica a ser superada. E convinha aos jovens de bom gosto olhar com desdém para suas aspirações.

Na condição de empresário, convivi muito com Pessimildo. Assitia a suas constantes reclamações com os juros, os impostos e a legislação trabalhista. Sabe como é… Ele trabalha no setor privado, o pobre!. Já em 2012, podia prever que a vaca iria para o brejo. Setores como o automotivo e a construção civil demonstravam estagnação desde essa época. Indústrias fechavam aos montes. Mas era proibido ouvir Pessimildo.

A falência do modelo econômico lulista se deu ao mesmo tempo em que falia seu projeto político. O “programa de transição” petista se dava na aliança entre o dito “proletariado”, então representado pelo PT, e o nosso “Ancien Régime”, materializado nos velhos coronéis políticos do Nordeste, donos de empreiteiras e empresários convertidos em aristocracia no capitalismo sem riscos do BNDES.

O impasse, segundo os petistas, se resolveria apenas com uma reforma política que concentrasse poderes e verbas nas mãos do partido e com o silêncio bovino do cada vez mais desacreditado Pessimildo. Cumpre lembrar: a pauta política artificial que emergiu do cada vez menos espontâneo “Junho de 2013″ foi a bizarra reforma política petista, capitaneada por “movimentos sociais” e pela “intelectualidade” uspiana de esquerda.

Tal reforma, baseada no financiamento público de campanhas e na lista fechada, representava uma mão na roda para o beneficiário maior do, nas palavras da Odebrecht, “sistema ilegítimo e ilegal de financiamento do sistema partidário-eleitoral” brasileiro: o Partido dos Trabalhadores.

Essa era a única maneira de romper com os parceiros de ocasião, que se aliavam, mas com rebeldia crescente, à coalizão governista liderada por Dilma. Segundo o modelo petista, tais aliados deveriam ser “dialeticamente” usados e superados pela concentração de poder e recursos nas mãos de um partido que detinha o controle total da maior fonte de financiamento político do país. Era pra dar certo. Mas o encanto se quebrou.

Quebrou porque “os companheiros” não contavam com o esgotamento do modelo gastador implementado por Lula e Mantega. Quebrou porque não poderiam imaginar que algo como a Operação Lava Jato pudesse existir. E, principalmente, quebrou porque as “Jornadas de Junho de 2013″ representaram um enorme fracasso para a esquerda do PT. Ao invés de assustarem Pessimildo, levaram-no às ruas. E ele gostou da brincadeira.

As manifestações de 2013 eram, sim, críticas à gestão Dilma, mas não aos fundamentos da elite dirigente. Suas reivindicações, se atendidas, culminariam inevitavelmente em mais Estado e mais governo. Seus idealizadores, o “Movimento Passe Livre”, continuam batalhando pelos cantos em conformidade, agora em conformidade com a estratégia diversionista do Planalto. Sem sucesso! Foi outra a catarse de 2013. A classe média, ainda que desarticulada e enfurecida, tomou das esquerdas o comando. Ainda que incapaz, então, de estabelecer uma agenda, impôs seus sentimentos e frustrações.

Foi assim que se criou a cultura de resistência que está na nas ruas. A iconografia e as palavras de ordem de 2015-2016 surgiram em 2013: “sem violência, sem partido, sem bandeira, camisetas verde-amarelas, MASP, ojeriza à corrupção…” Estava tudo lá. Já dizia Heráclito: “O ser de uma coisa finita é trazer em si o germe de sua destruição; a hora de seu nascimento é também a hora de sua morte.” Junho de 2013 carregava o germe de março de 2015. O PT começou a morrer ali.

Quando o MBL convocou sua primeira manifestação, em 1º de Novembro de 2014, sabíamos que iria dar certo. Aprendemos em 2013 quem era o público a ser convocado. Já sabíamos os primeiros cânticos, a linguagem comum a ser observada. Conhecíamos também os erros: sabíamos que era necessário contar com lideranças legítimas e com uma agenda factível.

O surgimento do MBL, do Vem Pra Rua e dos demais movimentos de rua possibilitou a criação de um antes inimaginável tecido político que reagrupou os milhões de Pessimildos espalhados país afora. Tudo aquilo que fora perdido em anos de aparelhamento ilegítimo das instâncias representativas da sociedade civil foi recuperado no prazo de um ano. Mais: ao contrário de fenômenos similares analisados por teóricos do mundo em rede — Occupy Wall Street, Indignados, Primavera Árabe — a revolução do Pessimildo não conta com apoio entusiasmado da academia, da imprensa e do establishment cultural. Muito longe disso, por sinal.

Esse organismo vivo, que tomou corpo ao longo de 2015, impôs derrotas fragorosas a todos os que se colocaram em seu caminho. A oposição vacilante foi atropelada pelas incisivas manifestações de 12 de abril e pela Marcha pela Liberdade, que resultou em um posicionamento pró-impeachment, na Câmara, das bancadas do PSDB, DEM e PPS. Manifestações pelegas dos outrora temidos “movimentos sociais” viraram motivo de chacota na Internet. Declarações oficiais eram convertidas em memes e piadas. Fases da Operação Lava Jato eram narradas como se fossem fim de campeonato.

Nem setores da grande imprensa escaparam. A tentativa de transformar o fenômeno em um Fla x Flu entre Cunha e Dilma naufragou, assim como a cobertura ultrajante que fizeram das aspirações dos brasileiros que saiam às ruas.

Muito a contragosto, tiveram de se render à agenda de Pessimildo: levamos o impeachment ladeira acima e unificamos um país disperso e deprimido. O monumental 13 de Março serviu como pá de cal para a luta inglória do jornalismo militante.

O combate à corrupção deixou de ser “moralismo pequeno burguês” da classe média e entrou na agenda do dia de todas as classes sociais. Ricos e pobres querem um país livre da corrupção — e não surpreende que o tema, pela primeira vez, tenha virado a maior preocupação dos brasileiros, conforme pesquisa recente da CNI.

Gostem ou não nossos intelectuais de esquerda, mas essa inédita articulação dos setores produtivos da nossa sociedade — assalariados e pequenos empresários — converteu-se numa força política sem paralelo em nossa história recente. É sólida, pois se baseia na consolidação institucional de valores já presentes na sociedade civil; é poderosa, pois comunica-se em rede numa velocidade jamais imaginada por qualquer Marina Silva.

A Revolução do Pessimildo é o fenômeno político mais excitante do mundo no momento. Seu sucesso dependerá de sua capacidade de converter tal impulso transformador em representação política, seja no Congresso Nacional, seja nos aparelhos da educação e da cultura que articulam os valores da política. Será um longo e árduo trabalho.

Mas, como a gente sabe, isso não assusta mais o Pessimildo.

Ele gosta de trabalhar.

Reflexões de um suposto coxinha

Gente que dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta como inimiga. Um muro foi erguido para me separar desses amigos

por Arthur Xexeo


Ando sensível. Acho que já contei isso aqui. Choro à toa. Antes era com comercial de margarina, cenas de novela, trechos do filme. Agora, é lendo jornal. Cada notícia da Lava-Jato, de início, me enche de indignação. Em seguida, fico triste. É aí que choro. Ando tendo vontade de chorar também em discussões com amigos. Gente que tempos atrás dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta como inimiga. Ou sou eu o inimigo? De qualquer maneira, num mundo que derrubava muros, de repente, um muro foi erguido para me separar desses amigos. Tento explicar como vejo o trabalho de Sergio Moro e nunca consigo terminar o raciocínio. No meio da discussão, me emociono, fico com vontade de chorar e prefiro interromper o pensamento. “Coxinha”, me xingam nas redes sociais. Bem, se o mundo está obrigatoriamente dividido entre coxinhas e petralhas, não tenho como fugir: sou coxinha!

Leio na internet que “coxinha” é uma gíria paulista cujo significado se aproxima muito do ultrapassado “mauricinho”. Mas, desde a reeleição de Dilma, esse conceito se ampliou. Serviu para definir de forma pejorativa os eleitores de Aécio Neves. Seriam todos arrumadinhos, malhadinhos, riquinhos e votavam em seu modelo. Isso não tem nada a ver comigo. Mas, nesta briga de agora, estou do lado que é contra Lula, logo sou contra os petralhas, logo sou coxinha.

Gostaria de falar em nome da democracia. Mas não posso. A democracia agora é direito exclusivo dos meus amigos que estão do outro lado do muro. Só eles podem falar em nome dela. Então, como coxinha assumido, deixo uma pergunta. Vocês acharam muito normal o ex-presidente Lula incentivar os sindicalistas para os quais discursou esta semana a irem mostrar ao juiz Sergio Moro o mal que a Operação Lava-Jato faz à economia brasileira? Vocês acreditam sinceramente nisso? O que a Operação Lava-Jato faz? Caça corruptos pelo país. Não importa se são pobres ou ricos. Não importa se são poderosos. Não era isso o que todos queríamos, quando estávamos todos do mesmo lado, quando ainda não havia um muro nos separando, e fomos às ruas pedir Diretas Já? Não era no que pensávamos quando voltamos às ruas para gritar Fora Collor? E, principalmente, não era nisso que acreditávamos quando votamos em Lula para presidente uma, duas, três, quatro, cinco vezes!!! Não era o Lula quem ia acabar com a corrupção? Ele deixou essa tarefa pro Sergio Moro porque quis.

Como, do lado de cá do muro, me decepcionei com o ex-líder operário, o lado de lá deu pra dizer que sou de direita. Se for verdade, está aí mais um motivo para eu estar com raiva de Lula. Foi ele quem me levou pra direita. Confesso que tenho dificuldades de discutir com qualquer petralha que não se irrita quando Lula diz se identificar com quem faz compras na Rua 25 de Março. Vem cá, já faz tempo que os ternos de Lula são feitos pelo estilista Ricardo Almeida. Será que Ricardo Almeida abriu uma lojinha na rua de comércio popular de São Paulo? Por mim, Lula pode se vestir com o estilista que quiser. Mas ele tem que admitir que o discurso da 25 de Março ficou fora do contexto. A gente não era contra discursos demagógicos? O que mudou?

Meus amigos petralhas dizem que é muito perigoso tornar Sergio Moro um herói. Que o Brasil não precisa de um salvador da pátria. Mas, vem cá, não foi como salvador da pátria que Lula foi convocado para voltar ao governo? Não é ele mesmo quem diz que é “a única pessoa” que pode incendiar este país? Não é ele mesmo quem diz que é a “única pessoa” que pode dar um jeito “nesses meninos” do Ministério Público? Será que o verdadeiro perigo não está do outro lado do muro? Não é lá que estão forjando um salvador da pátria?

Há muitas décadas ouço falar que as empreiteiras brasileiras participam de corrupção. Nunca foi provado. Agora, chegou um juiz do Paraná, que investigava as práticas de malfeito de um doleiro local, e, no desenrolar das investigações, botou na cadeia alguns dos homens mais poderosos do país. Enfim, apareceu alguém que levou a sério a tarefa de desvendar a corrupção que há muitos governos atrapalha o desenvolvimento do país. E, justo agora, quando a gente está chegando ao Brasil que sempre desejamos, Lula e seus soldados querem limites para a investigação. Pensando bem, rejeito a acusação de ser coxinha, rejeito ser enquadrado na direita, rejeito o xingamento de antidemocrata, só porque apoio o juiz Sergio Moro e a Operação Lava-Jato. Coxinha é o Lula que se veste com Ricardo Almeida e mantém uma adega de razoáveis proporções no sítio de Atibaia. E, para encerrar, roubo dos petralhas sua palavra de ordem: sinto muito, mas não vai ter golpe. Sergio Moro vai ficar.


* * * * * *
Não sou só eu que anda chorando. Sim, Sergio Moro vai ficar e vai ter impeachment.

Mulheres que amamos


Julia Gilas, ucraniana, modelo, moradora da Califórnia. Feliz Páscoa!

domingo, 27 de março de 2016

Um nero mambembe, editorial do Estadão

Em uma das conversas gravadas recentemente pela Polícia Federal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva gaba-se de ser “a única pessoa que poderia incendiar o País”. Eis aí a ameaça nada velada do chefão petista de provocar distúrbios caso o cerco judicial e político se feche de vez contra ele e contra seus apaniguados. É claro que se deve levar a sério qualquer movimentação da tigrada para causar abalos à ordem pública, a título de defender o ex-presidente do que considera uma injustiça. Mas que não se exagere o poder de Lula – pois, neste momento, pode-se dizer que as únicas coisas que o autoproclamado Nero consegue reduzir a cinzas são sua própria biografia, o pouco que restou da Presidência de Dilma Rousseff e o PT.

Lula é um líder político que se diz “popular”, mas hoje não pode sair às ruas sem correr o risco de levar estrepitosa vaia. Também não viaja em aviões de carreira – prefere o conforto e a privacidade de jatinhos emprestados ou alugados, diz-se que pelo Instituto Lula, que, na verdade, é seu escritório político. Lula, ademais, só consegue comparecer a eventos estritamente controlados, em que a entrada é limitada àqueles que seguramente urrarão a cada bravata proferida no palanque.

Esse isolamento se traduz por sua crescente impopularidade. Segundo o Datafolha, a rejeição a Lula chegou a 57% dos eleitores. Nas classes mais pobres, reduto do voto lulopetista, já são 49% os que repudiam o ex-presidente.

O poder de Lula se restringe cada vez mais à voz de comando que tem sobre um punhado de sindicalistas e líderes de movimentos sociais, que, a título de proteger o genial guia da “perseguição” judicial, ameaçam transformar em milícias as organizações que chefiam, afrontando ainda mais a lei e ameaçando diretamente a democracia. Tudo para defender um projeto que transformou o Estado em fonte da preciosa boquinha que sustenta essa turma de ergofóbicos.

Os sequazes do lulopetismo são minoritários, como provou a manifestação do dia 18. Naquela oportunidade, menos de 300 mil pessoas em todo o País atenderam à convocação da CUT e de movimentos sociais em ato de “desagravo” a Lula. O número não chegou a 10% do total de manifestantes que saíram às ruas no dia 13 para exigir o impeachment de Dilma e expressar seu desapreço por Lula e pelo PT. Considerando-se que a CUT diz ter quase 8 milhões de trabalhadores associados, sua capacidade de mobilização para ajudar Lula, mesmo apenas entre seus filiados, provou-se muito limitada.

Ademais, pode-se especular que, se não fosse o chamamento da CUT – que sempre vem acompanhado de pagamento de cachê, de transporte gratuito e de fornecimento dos já tradicionais sanduíches de mortadela para os manifestantes –, muito provavelmente a afluência teria sido ainda menor.

É certo que ainda há quem se disponha a defender Lula sem receber nada em troca. Com convicção comovente, dizem tratar-se de um grande líder, o primeiro político neste país a olhar para os pobres e, portanto, merecedor de consideração mesmo por parte daqueles que não votaram nele.

Diante de tudo o que o País hoje sabe a respeito de Lula, no entanto, pergunta-se: como é possível defendê-lo? Como acreditar no discurso de alguém que critica as “elites” ao mesmo tempo que come, bebe, dorme e se diverte à custa de favores de empreiteiros? Como acreditar nas juras de inocência de um homem que chefia com mão de ferro o partido que é o principal beneficiário do maior esquema de corrupção da história brasileira? Como enxergar em Lula o republicano que ele diz ser enquanto, ao mesmo tempo, está claro que ele procurou sabotar as instituições republicanas no momento em que estas o flagraram com a boca na botija?

Leia o restante aqui