"De tanto ver triumphar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver prosperar a deshonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Ruy Barbosa

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Nunca antes neste país, por Merval Pereira

 O "maior superávit que for possível produzir", na promessa do ministro-chefe do Gabinete Civil Aloísio Mercadante, transformou-se em um déficit primário de R$ 17 bilhões, o maior em 20 anos. A nova equipe econômica, que teve o ônus de anunciar o recorde negativo, terá portanto que partir desse déficit histórico para chegar ao prometido superávit primário de R$ 66 bi este ano, a fim de recuperar a credibilidade do Tesouro Nacional.

Para se ter uma ideia do ritmo em que andaram os desmandos no governo, em janeiro, o superávit oficial prometido era de R$ 116,1 bilhões. No meio do ano, em agosto, já se via que esse número seria inatingível para as condições da economia e o superávit foi revisto para R$ 80,8 bilhões. Um mês depois, nova redução para RS 49,1 de bilhões.

Finalmente, no final do ano, para não ser acusada de crime de responsabilidade, a presidente Dilma mandou um projeto para o Congresso mudando a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para permitir ao governo descumprir a meta fiscal do ano, e inclusive ter um resultado negativo (déficit), como aconteceu.

Enquanto isso, o ex-ministro Guido Mantega, que passou meses garantindo que não haveria déficit, dedicava-se a barrar no Conselho de Administração da Petrobras a possibilidade de o balanço divulgado revelar o montante do prejuízo da estatal com a corrupção desenfreada que nela se instalou.

O impressionante é que o Palácio do Planalto teria comemorado a não divulgação do prejuízo da corrupção, numa demonstração clara de que já não há mais uma estratégia para proteger a Petrobras, mas sim o governo, mesmo às custas do prejuízo da estatal, cujas ações caíram 11% na quarta e mais um pouco ontem. Uma decisão política, portanto, como as que vêm orientando os passos da estatal desde que o ex-presidente Lula decidiu que a Petrobras poderia ser um instrumento político no sentido mais baixo do termo, tanto financiando a base partidária como gerando imagens e mensagens que, mesmo não correspondendo à verdade, serviam para propaganda governista.

A autossuficiência do petróleo foi apenas o começo de uma série de demagogias que culminaram na alteração do marco regulatório para a exploração do pré-sal, o tal bilhete premiado que o país teria recebido de Deus. A Petrobras passou a ser responsável por no mínimo 30% da exploração de todas as áreas do pré-sal, como se isso garantisse que "o pré-sal é nosso". Mas não há dinheiro para mais essa megalomania, e ontem a presidente Graça Foster anunciou que reduzirá ao"mínimo necessário" a exploração de petróleo.

Também ontem, como consequência da divulgação do balanço que, mesmo sem os prejuízos contabilizados já mostrou uma queda do lucro da Petrobras e um endividamento recorde, fornecedores denunciaram que não estão recebendo em dia e o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, ameaçou cortar o regime especial de recolhimento de impostos no estado que privilegia a Petrobras caso ela continue sem pagar os royalties a que o Rio tem direito.

Com a redução do preço do petróleo o Estado do Rio já vem recebendo menos pelos royalties, e a estatal em vez de pagar o que deve, faz depósitos em juízo. Outro governador, Camilo Santana do Ceará, está em pé de guerra com a decisão da Petrobras de desistir da refinaria que seria construída no seu estado.

Foi uma decisão pessoal do ex-presidente Lula, para agradar aos irmão Gomes, contra a diretriz da empresa na época, que considerava a decisão antieconômica. Juntamente com a do Ceará, para 300 mil barris/dia, foi autorizada a Refinaria Premium do Maranhão, com previsão de refino de 600 mil barris/dia, a maior do país, para agradar à família Sarney.

Ambas foram agora descartadas, justamente por não serem viáveis economicamente. Essa carteirada de Lula provocou um prejuízo de R$ 2,7 bilhões à Petrobras, sendo que o governador do Ceará reclama que já foram gastos R$ 600 milhões. No Maranhão, foram jogados no lixo R$ 2,1 bilhões em terraplanagem que não servirá para nada.

Para coroar o dia, a presidente da Petrobras, Graça Foster - que deve ser a campeã de máscaras de Carnaval este ano, rivalizando com a do Cerveró, que tenta inutilmente barrar na Justiça o uso de seu olho caído na folia - disse que o prejuízo da estatal pode ser muito maior do que se presume, pois ainda serão analisados os prejuízos em novos projetos e datas.

Durma-se com um barulho desses...

"Nuncaantesnestepaiz" se fez tanto para enganar o público, ou, é de propaganda que eles sobrevivem.

O discurso da desaparecida Dilma na "maior reunião ministerial do planeta" - aquela onde a filha de Ali Blá-Blá se reuniu com quase 40 ladrões - é, sob qualquer prisma, uma peça de ficção. Estão ali enganações, devaneios, prestidigitações intelectuais, charlatanismo, falta de vergonha e mentira, muita mentira, mesmo!

A presidente não se contenta em agredir a lógica e tentar desfazer, com a cara mais lavada, os fatos. Ela se presta a papéis ridículos, fazendo de conta que a roubalheira e a corrupção na Petrobras não são problemas afetos a ela, pessoalmente e que os problemas que o governo enfrenta não foram criados pelo próprio governo. Ou seja, em completa alienação, quer nos fazer crer que o mundo é o que ela quer que seja.

No processo, ela tortura números, falseia estatísticas, e coloca "vontades" no povo, como se tivesse obtido uma folgada maioria nas últimas eleições.

Fréderic Bastiat, o economista liberal e jornalista francês dizia que são necessárias somente algumas poucas palavras para estabelecer uma meia-verdade, mas precisamos de extensas e áridas dissertações para demonstrar uma verdade inteira. O ghost writer de Dilma (ela não tem capacidade de escrever um bilhete com um pouco mais de duas linhas) deve ter pegado esta sátira do fidagal inimigo do socialismo, F. Bastiat, para construir um emaranhado de bobagens que só vale a leitura para poder rebater, um por um, os sofismas e falácias.

Não vou me dar ao trabalho de analisar em detalhes o discurso. Seria penoso, entediante e não paga o preço. Quero apenas destacar que a principal mensagem que a "presidAnta" envia a seus comandados é a de partirem para a guerra da propaganda, com todas as suas forças. Não bastasse o cipoal de mentiras que o marqueteiro João Santana fez parecerem verdades na campanha eleitoral, a autista não pede que se trabalhe, que se façam todos os esforços para debelar a crise que eles próprios criaram. Ela quer que as pessoas pensem que a crise não existe. Ela quer continuar enganando, mantendo as pessoas na ilha da Fantasia, no mundo do faz-de-conta que o PT inventou.

É por essas e por todo o histórico que acredito que ela não termina o segundo mandato. É importante que as pessoas se mantenham vigilantes. A cretina e seus comparsas farão o diabo para se manter no poder. Nós é que temos que fazer garantir o cumprimento da Constituição e das Leis neste país. Mesmo que isso venha a ter um preço maior do que gostaríamos.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Sinto vergonha de mim - Cleide Canton e Rui Barbosa

SINTO VERGONHA DE MIM

Autora: Cleide Canton


Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo,

por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade,

por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil

enveredar pelo caminho da desonra.



Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era

que lutou pela democracia, pela liberdade de ser

e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente,

a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez

no julgamento da verdade, a negligência com a família,

célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação

com o “eu” feliz a qualquer custo, buscando a tal “felicidade”

em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir,

sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas

pelo orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade

para reconhecer um erro cometido, a tantos “floreios” para justificar

atos criminosos, a tanta relutância

em esquecer a antiga posição de sempre “contestar”,

voltar atrás e mudar o futuro.


Tenho vergonha de mim, pois, faço parte de um povo que não reconheço,

enveredando por caminhos que não quero percorrer…

Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra,

das minhas desilusões e do meu cansaço

Não tenho para onde ir, pois, amo este meu chão,

vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira

para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo

na pecaminosa manifestação de nacionalidade.


Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!



O trecho abaixo é de Rui Barbosa e é texto-símbolo deste blog, desde a sua criação em 2007. Algumas pessoas o vem inserindo no poema acima, juntando tudo como se fosse uma coisa só. Não é correto.



“De tanto ver triunfar as nulidades,

de tanto ver prosperar a desonra,

de tanto ver crescer a injustiça,

de tanto ver agigantarem- se os poderes

nas mãos dos maus,

o homem chega a desanimar da virtude,

A rir-se da honra,

a ter vergonha de ser honesto”



Rui Barbosa

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Em de dezembro de 1914, Rui Barbosa fez um pronunciamento no Senado. Abaixo o pequeno discurso na íntegra.


Vergonha

"A falta de justiça, Srs. Senadores é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação.

A sua grande vergonha diante do estrangeiro, é aquilo que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais.

A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas.

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Essa foi a obra da República nos últimos anos. No outro regime (na Monarquia), o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam e que, acesa no alto (o Imperador, graças principalmente a deter o Poder Moderador), guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sem relatividade e sem contemplação

O terrorismo é indefensável. Como regra, é perpetrado de forma covarde, desleal, ardilosa, sorrateira, sanguinária e perversa, buscando atingir inocentes, chocar a opinião pública, intimidar os poderes constituídos, sequestrar a vontade popular, se impor pela força, pela brutalidade e pela boçalidade. Que o digam alguns próceres desta república de bananas, que foram responsáveis, no passado, por atos desta mesma estirpe, sequestrando, roubando e matando, em nome de uma causa que NUNCA foi o estabelecimento da democracia em nosso país.

O ataque à revista francesa, Charlie Hebdo, preenche todos os requisitos de crueldade, frieza e infâmia que caracterizam esta forma de ação de quem conspira nas sombras.

Tudo leva a crer que os autores do massacre ocorrido em Paris foram movidos pela vingança, pelo ódio e pelo desejo de calar os que, segundo a sua lógica, teriam ofendido o Islã e os sentimentos sagrados dos muçulmanos.

E quem é o alvo da barbárie? O que teriam feito para insultar e ultrajar islamitas a ponto de causar um reação tão despropositada, desproporcional, mortífera e violenta como a que se verificou?

Nessa história, assim como na maioria das que se desenrolam na arena das ideologias, da política e da economia, não há inocentes. As coisas são feitas com objetivos específicos, compromisso e concepções.

O pessoal do Charlie Hebdo nunca teve na discrição um de seus preceitos. Ao contrário, há anos satiriza, muitas vezes, de forma muito ácida e ofensiva, religiões, religiosos, políticos, e figuras públicas. A provocação e a afronta são uma marca do semanário. A publicação, de tendência esquerdista, que já foi alvo de um outro atentado, foi acusada de racismo por estabelecer uma ligação entre muçulmanos e terroristas mulçumanos; e perdeu uma causa, movida pelo veterano cartunista Siné, sendo obrigado e pagar 90.000 euros por anti-semitismo. Nada disso os qualifica como alvo de retaliações, mas, aos olhos de débeis mentais poderia vir a ser. Acredito que este seria um risco que eles sabiam correr.

Sob o manto da religião, a selvageria de frustrados, fanáticos, intolerantes e bárbaros, explode, de tempos em tempos, com o apoio, ou não, de grupos organizados. Frequentemente financiados e treinados por grupos terroristas como a Al-Qaeda, escondem-se na interpretação equivocada de passagens dos livros sagrados do islamismo para cometer todo tipo de aberração, a título de punição aos infiéis. Agem em nome de Alá, mas são agentes do inferno e das trevas, de uma abominável luta do atraso contra a democracia e a liberdade.

Não é preciso pedir para o Charlie Hebdo que desista do seu direito de fazer piadas ofensivas e/ou de mau gosto, com quem quer que seja. Compra e consome o jornaleco quem vê nele a graça que eu não vejo. E, nem por isso tenho vontade de exterminá-los.

O mundo está precisando de tolerância, respeito às idéias dos outros e democracia. Quem tem de ser contidos são esses jihadistas obtusos e nefastos.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Como funciona a piada de português que não é piada, por O antagonista

O Antagonista foi examinar o modelo lusitano (em mais de um sentido) que o governo Dilma quer implantar no Brasil de cerceamento à liberdade de imprensa. Vale a pena ler até o final. Em Portugal, a imprensa é regulada desde 2006 pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Os candidatos a integrar o conselho da ERC integram listas que são votadas pelos deputados da Assembleia da República. Ganha a que obtiver mais de dois terços dos votos. O mandato é de cinco anos, não renovável. O conselho, composto por cincos pessoas, tem quatro eleitas por esse sistema e uma escolhida pelo quarteto vencedor. Ele se reúne uma vez por semana, mas pode ser convocado extraordinariamente por seu presidente em casos de "emergência" -- o que, no Brasil, provavelmente seria quando se noticiasse um escândalo governamental.
Entre as atribuições da ERC, estão as de:
-- Assegurar que a imprensa se paute por critérios de exigência e rigor jornalísticos, responsabilizando publicamente os seus infratores. Tradução no Brasil: intimidação de donos de meios de comunicação e de diretores de redação que estejam em desacordo com as conveniências do poder petista.
-- Apreciar e decidir sobre queixas relativas aos direitos de resposta e de réplica política. Tradução no Brasil: usurpação de um atributo da Justiça.
-- Proceder à identificação dos poderes de influência sobre a opinião pública, na perspectiva do pluralismo e da diversidade, podendo adotar as medidas necessárias à sua salvaguarda. Tradução no Brasil: censura, censura, censura.
-- Apreciar, a pedido do interessado, a ocorrência de alteração profunda na linha de orientação ou na natureza dos órgãos de comunicação social, quando invocada a cláusula de consciência do jornalista (pois é, há uma). Tradução no Brasil: criação de sovietes dentro das redações de jornais, revistas, internet e TV.
-- Fiscalizar os conteúdos publicitários. Tradução no Brasil: adeus à autorregulação do Conar; controle total pela Anvisa anticapitalista e aparelhada da propaganda da indústria alimentícia, em especial da dos concorrentes da Friboi.
É uma piada? Sim, mas pode não ser.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A esquerda palaciana

Demétrio Magnoli, O Globo

“Vamos fazer a disputa dentro do governo.” O objetivo, definido por Raimundo Bonfim, da Central de Movimentos Populares (CMP), é uma sentença opaca para os “de fora”, mas uma senha cristalina para os “de dentro”.

A “frente de esquerda” articulada duas semanas atrás numa reunião no Largo São Francisco, em São Paulo, é o veículo para a soldagem de partidos, centrais sindicais e movimentos sociais ao governo de Dilma Rousseff. É, ainda, de um modo menos direto, uma ferramenta da candidatura presidencial de Lula da Silva em 2018.

O conclave contou com representantes do PT e do PCdoB, partidos governistas, mas também do PSOL e do PSTU. No Largo São Francisco, os dois partidos aceitaram a condição de sublegendas informais do PT. Lá estava a CUT, que obedece ao comando lulista, mas também a Intersindical, um pequeno aparelho do PSTU.

A presença do MST, da Via Campesina e da Consulta Popular, três nomes para a mesma substância, inscreve-se no campo do óbvio. Mais relevante foi a participação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e do Levante Popular da Juventude, que emergiram com ambições de autonomia em relação ao lulopetismo.

A Arca de Noé da esquerda adotou uma agenda de manifestações cortada na alfaiataria do PT, cujos destaques são a reivindicação de uma Constituinte exclusiva para a reforma política e a “defesa da Petrobras”, uma bandeira que deve ser traduzida como a proteção das altas autoridades do governo diante das investigações da Lava-Jato.

Curiosamente, enquanto acusam Dilma de rendição às propostas de política econômica de Aécio Neves, as correntes reunidas no Largo São Francisco desenharam o esboço de um Partido de Esquerda do Planalto.

Duas mãos moveram o berço. A mão visível, de Guilherme Boulos, do MTST, funcionou como álibi para a adesão das correntes que pescam em águas situadas à esquerda do PT. A mão invisível, de Lula, apontou o rumo político da articulação, ancorando-a num porto encravado em sua esfera de influência.

O espantalho convocado como pretexto para a adesão geral são as manifestações pela “volta dos militares”, que atiçam apenas o interesse de um setor ridiculamente marginal da sociedade. O jogo da verossimilhança solicitou a marcação de atos públicos pela cassação de Jair Bolsonaro, um oportuno inimigo do peito, e de repúdio ao golpe militar de 1964, que completa redondos 51 anos.

O Brasil não é para principiantes. Em tese, o “giro ortodoxo” do governo Dilma, personificado em Joaquim Levy, provocaria a configuração de uma oposição pela esquerda. Contudo, desde a ascensão do lulopetismo ao poder, a esquerda tornou-se caudatária do Palácio.

A santa indignação dos “amigos do povo” contra a nomeação de Levy não se desenvolve na forma de uma ruptura política com o governo, mas em pedidos explícitos de compensações. Como esclareceu Lindbergh Farias, um petista que nunca viu motivos para camuflar o oportunismo, “fazer a disputa dentro do governo” significa emplacar “companheiros” em postos relevantes no aparelho de Estado — ou, no caso dos movimentos sociais, obter financiamentos da administração pública.

Kátia Abreu, Gilberto Kassab e Guilherme Afif são novas demonstrações da tese tantas vezes comprovada de que as convicções doutrinárias de nossos liberais conservadores não resistem à oferta de um feudo no condomínio do poder. Na era do lulopetismo, a constatação deve ser estendida a quase toda a esquerda.

O segundo mandato de Dilma, iniciado sob os signos do fracasso e da crise, descortina a farsa em toda a sua amplitude: as lideranças reunidas no Largo São Francisco cumprirão dupla jornada, revezando-se entre manifestações encomendadas e conchavos de gabinete com emissários de Lula.

A “frente de esquerda” certamente atende aos interesses de seus participantes, mas, sobretudo, aos de Lula. O ex-presidente, cuja candidatura a um terceiro mandato surgiu ainda durante a campanha reeleitoral de Dilma, planeja jogar em dois times. Em princípio, alinha-se com o governo do qual é fiador.

Nas semanas difíceis do segundo turno, diante do risco real de derrota, desdobrou-se em conversas com o alto empresariado para oferecer garantias de um retorno à racionalidade econômica. Por outro lado, desde a proclamação do resultado, manobra para desvincular a sua imagem dos efeitos da reorientação da política econômica. Na hipótese provável de erosão acelerada da popularidade do governo, Lula calibrará seu discurso no registro da “crítica pela esquerda”.

Aécio Neves declarou, há pouco, que Levy enfrentará mais dificuldades com o PT que com a oposição. O PSDB, sugere a declaração, estaria pronto a respaldar as “medidas impopulares” que derivam, em linha direta, de tantos anos de uma irracionalidade econômica fundada no cálculo político.

Do ponto de vista de Lula, esse é o cenário ideal para a construção de uma candidatura aureolada pela promessa de retorno aos “bons tempos” de crescimento da renda e do consumo. O ministro da Fazenda faria o “trabalho sujo” do ajuste fiscal, com o apoio tácito da oposição e sob o bombardeio retórico da “frente de esquerda”.

Na sequência, durante a etapa derradeira do governo agonizante de Dilma, Lula ergueria a bandeira dos interesses do “povo”, culpando a “elite” pelos sofrimentos impostos por um “banqueiro”. O longo ato de prestidigitação precisa apenas da colaboração de uma oposição incapaz de fazer política.

Os “amigos do povo” coligados na “frente de esquerda” conhecem perfeitamente a regra do jogo. Todos eles, da esquerda do PT ao PSOL, passando pela CUT e pelo MTST, sabem que operam como marionetes no teatro lulista — e que seus gritos indignados contra um golpe militar tão antigo ou um Bolsonaro tão insignificante são gestos automáticos num espetáculo farsesco. Mas isso já não importa: eles se acostumaram com a subserviência, o preço justo que pagam pela sobrevivência

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ja vi esse filme. No fim, o bandido ganha

Ricardo Noblat
                               
A campanha da presidente Dilma, ela mesma, Lula e boa parte do PT debocharam do que disse a candidata Marina Silva (PSB) sobre como montaria seu governo caso se elegesse.

Marina afirmou que simplesmente governaria com os melhores elementos de cada partido sem discriminar nenhum partido.

É uma boba, garantiram alguns. Uma sonhadora, acusaram outros. Governar com os melhores é impossível, apenas isso.

Ou Marina dominava uma receita que só ela conhecia ou então se pautaria pelo bom senso. E o bom senso lhe aconselhava a procurar gente decente, comprometida com a ética e talentosa para ocupar cargos do primeiro e do segundo escalão da República.

E se essa gente fosse incapaz de lhe garantir a maioria dos votos no Congresso? E se por causa disso o governo capengasse?

Marina confiava que não passaria sufoco porque, em primeiro lugar, governaria apenas por quatro anos. Descartara a reeleição.

O que a seu ver seria o bastante para apaziguar os ânimos no Congresso e refrear as ambições, por suposto.

Segundo porque governaria com transparência, prestando contas aos eleitores de todos os seus passos e discutindo com eles suas dificuldades.

Fernando Collor se elegeu presidente em 1989 sem maioria no Congresso. Quis cooptar o PSDB e não conseguiu.

Chamou de “único tiro” contra a inflação o plano econômico que garfou a poupança dos brasileiros.

Por mais estúpido que tenha sido o plano, o Congresso não se negou a aprová-lo. Caso desse certo, o Congresso ficaria bem na foto. Se desse errado, o presidente é que ficaria mal.

Não foi por falta de apoio do Congresso que Collor acabou deposto. Foi por falta de apoio popular.

O Congresso é sensível ao sentimento das ruas. E todo presidente, a princípio, se beneficia de um período de lua de mel com a opinião pública.

Até que o período se esgote, ele pode se comportar com um grau de liberdade que mais tarde se estreitará. A não ser que o sucesso bata à sua porta.

Ninguém mais do que Lula reuniu condições para governar sem ser obrigado a fazer concessões que por fim o apequenassem, e ao seu partido.

Foi o primeiro nordestino ex-pau de arara, ex-líder sindical, ex-preso político a subir a rampa do Palácio do Planalto.

Ocupou o principal gabinete do terceiro andar com crédito para gastar por muito tempo. Encrencou-se porque piscou primeiro.

Sob pressão para lotear o governo como seus antecessores haviam feito por hábito ou necessidade, Lula subestimou o apoio das ruas.

Preferiu apostar no apoio do Congresso. Logo ele, que no final dos anos 80 do século passado, enxergara ali pelo menos 300 picaretas.

Foi atrás dos picaretas. Beijou a cruz – e de quebra a mão de Jáder Barbalho. O mensalão quase o derrubou.

Dilma atravessou a metade do seu primeiro governo resistindo à ideia de ceder ao “pragmatismo político”.

Em conversa, certo dia, com um amigo, ouviu dele: “Tirando três ou quatro, só tem desonesto no Congresso”. Ela respondeu: “E eu não sei?”

Para se reeleger, cedeu ao apetite dos desonestos. Beijou a cruz. E de quebra a mão de Helder Barbalho, filho de Jáder, seu futuro ministro da Pesca.

Foi medíocre o primeiro ministério de Dilma O governo que resultou disso foi naturalmente medíocre.

Pois bem: ela está perto de cometer o prodígio de montar outro ministério igual ou talvez pior.

O que a diferenciava dos políticos a quem tanto desprezava é, hoje, o que a torna cada vez mais parecida com eles.

Feliz Ano Novo para todos!