"De tanto ver triumphar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver prosperar a deshonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Ruy Barbosa

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Começa a surgir o custo do aparelhamento - Editorial d'O Globo

Há pelo menos nove anos, desde a denúncia do mensalão, em 2005, ouve-se o mantra lulopetista: “Todos fazem" e “Isso já foi assim no passado". Mas o assalto à Petrobras, cometido numa associação criminosa entre altos dirigentes indicados pelo PT, PMDB e PP, e empreiteiros pulverizou a desculpa, porque nunca antes na história do país surgiram evidências e provas de tamanho esquema de corrupção concentrado num único setor.

Estatal de grandes proporções, a Petrobras volta e meia era motivo de rumores sobre desvios. Já se ouviram histórias de conluio de diretores com potentados árabes fornecedores de petróleo, no tempo que a empresa era a maior importadora individual de óleo do mundo. Também já circularam, há muito tempo, casos de conluio com fornecedores de plataformas, semelhantes ao comprovado agora na relação incestuosa entre a holandesa SBM, o diretor apadrinhado pelo PT Renato Duque e seu braço-direito Pedro Barusco — que se compromete a repatriar US$ 100 milhões embolsados em negociatas. Apenas Barusco é maior que o mensalão.

O tamanho desproporcional do petrolão comparado com outros golpes de drenagem criminosa de dinheiro público se explica pelo aparelhamento lulopetista da Petrobras.

Como a empresa foi tomada de assalto — com trocadilho — por petistas ligados a Lula/José Dirceu, e com ramificações no meio sindical, criaram-se as condições para uma operação ampla e organizada. Para o bem ou mal. No caso, para o mal.

Quem mais ocupou a presidência da estatal nestes 12 anos foi José Sérgio Gabrielli, economista baiano, militante sindical petista, também conhecido por participar da campanha da reeleição de Lula, em 2006, com a estrela vermelha do partido na lapela. Ontem, foi denunciado pelo Ministério Público fluminense, junto com a empreiteira Andrade Guttierrez, devido ao superfaturamento das obras de ampliação de centro de pesquisas da estatal (Cenpes). Ainda não se trata da Lava-Jato.

Aquela estrela no peito do presidente da Petrobras, percebe-se hoje, simbolizava o encampamento da estatal pelo partido e seus aliados. Dava-se o impensável pela militância: o partido estatista, que vociferava denúncias de tramas tenebrosas para privatizar a empresa, estava no centro de um esquema de roubalheira “privada”, capaz de fraquejar a dona de grande reserva de petróleo.

Os desfalques deixaram de ser — se é que existiram — atos isolados, para ganharem escala industrial. Ainda não é possível fazer um balanço final da dimensão da ruína, mas, até agora, o aparelhamento lulopetista desvalorizou a Petrobras em cerca de 40%, no ano, fechou linhas de crédito no mercado internacional e criou a ameaça de esvaziar o caixa da empresa. Basta o governo continuar catatônico, sem agir para começar a reconstrução da estatal. A desmontagem de uma empresa deste tamanho é caso a ser estudado a fundo.

domingo, 14 de dezembro de 2014

O plano

Quanto tempo temos para viver? Esta é uma pergunta recorrente na cabeça das pessoas. Um ano? Dez anos? Vinte anos? Dez dias? Dez horas? O que garante que logo mais ainda estaremos por aqui, vivos, tomando caminhos, comendo, bebendo, falando, olhando o mar, apreciando as montanhas, fazendo amor ou simplesmente em contemplação? Uma das coisas mais bem feitas pelo Criador, sem dúvida, é esta incerteza quanto ao dia da partida, do momento de ruptura definitiva com o mundo, do mergulho no desconhecido, do abandono a tudo que representa respirar, da constatação final. Felizmente, a data da morte não está marcada - eis aí uma das coisas mais belas da vida!

Renan resolveu inverter esta lógica, ou quis invertê-la. Jovem, 36 anos, ainda com o corpo do atleta que fora na juventude, bem-sucedido, um casamento desfeito e inúmeras relações passageiras, decidiu que não importasse o que sucedesse, morreria no dia 01 de janeiro de 2015, não por coincidência, o dia em que completaria 40 anos. Tomou essa decisão exatamente dois anos antes, concedendo-se, assim, quatro anos até o dia em que iria morrer. 


Foi na festa de reveillon, na casa de amigos, localizada no topo de uma montanha, no Rio de Janeiro, com vista para o mar, em uma animada conversa, que Renan avisou: "- vou morrer daqui a quatro anos!". A festa corria normalmente, bebidas, fogos, gente bonita, música, ceia de primeira, e aquela frase, pronunciada em um círculo que se formara no jardim, onde se podia conversar, sorrir, trocar olhares, sem muita interferência dos sons da festa, soou como um mau agouro, uma ideia boba, um propósito desparatado.


Mas, Renan insistiu e explicou: "daqui a pouco é o meu aniversário de 36 anos. Minha mãe fez o favor de me ter no primeiro dia do ano, para a maioria um momento de festa, alegria e comemoração. Por que, então, não encerrar a minha passagem pela terra neste mesmo dia, fechando um ciclo, com números redondos, num dia onde todos estão alegres, motivados e pouco dispostos a ficar tristes?". Todos protestaram, disseram que aquilo era bobagem, uns até ficaram aborrecidos, deixando a roda, afirmando que ele deveria deixar a natureza percorrer o seu curso. Ao que Renan replicou: "a natureza é burra, ela não vai escolher um método para a minha morte que me agrade, vai me trazer uma doença, me fazer sofrer, ou vai derrubar o avião que eu esteja viajando, dilacerar o meu corpo, me inflingir momentos de desespero, ou vai fazer um assaltante me dar um tiro na cabeça, que pode me fulminar, ou me deixar vegetando durante anos. Não quero isto. Quero escolher como vou morrer e a hora que vou morrer."


A coisa começou a parecer séria para os amigos de Renan, e pouco a pouco entenderam que aquilo não foi pensado naquele instante, que Renan já vinha fazendo um plano mórbido, e que esperara a festa para anunciá-lo. Que o anúncio era parte do que fora decidido pelo amigo.


Alguns ficaram chocados. Claudio, um dos melhores amigos de Renan, protestou: "isso é traição! Você maquinou isso tudo e veio aqui nos jogar na cara que não o teremos mais, e com data marcada!".


Angela, que sempre nutriu um desejo secreto pelo amigo, também protestou, mas, intimamente avaliou: - pode ser que ele queira fazer despedidas. Quem sabe eu entro nessa?


Um a um, foram formando uma corrente contra as intenções de Renan, mas, este estava irredutível. Até que a palavra coube ao seu amigo mais querido, aquele que o conhecia desde pequeno, que num olhar adivinhava as intenções e os próximos passos de Renan, que era como um irmão sanguíneo que Renan não teve: "Eu topo!", disse ele.


- Topa o que, César?, perguntou Hélio, o mais velho dos "quatro mosqueteiros", como se denominavam os quatro camaradas, que passaram a infância, a juventude e boa parte do começo da idade adulta juntos.


- Topo preparar esta partida em grande estilo. Não sei o jeito que você vai querer morrer, mas, sei que vamos passar os quatro anos que vem por aí da forma mais criativa, intensa e divertida possível. Para que você tenha um "gran finale".


Houve quem discordasse, dissesse que estavam ficando loucos, e até quem não desse importância, acreditando que estavam bêbados por causa da festa.


Os quatro mosqueteiros, porém, sabiam que ali tinha sido tomada uma decisão. E que ela seria levada a sério.


(continua na semana que vem, ou quando eu puder)

A desgraça de ficar sem Graça

por Mary Zaidan
Diz a lenda que jabuticaba só existe no Brasil. Ainda que a tese seja controversa, já que há espécies nativas catalogadas no México, tudo aquilo, especialmente absurdos só vistos por aqui, é comparado com a frutinha negra. Seria mais exato se isso fosse feito em relação à Petrobras, possivelmente a única empresa estatal do mundo que carrega em si o orgulho de uma nação. E, agora, a vergonha.

Vergonha expressa no e-mail que a ex-gerente Venina da Fonseca escreveu em 2011 para a então diretora de Gás e Energia Graça Foster, hoje presidente da estatal, reiterando alertas sobre esquemas de corrupção: “Do imenso orgulho que eu tinha pela minha empresa passei a sentir vergonha.”

Venina foi fundo. Se verdade ou não, as investigações dirão. Mas os sentimentos dela, revelados pelo jornal Valor Econômico, parecem ser compartilhados não só pelos funcionários da estatal, mas por boa parte do país.

Criada sob a égide de “o petróleo é nosso”, que uniu utopias de comunistas e nacionalistas, a petroleira foi o símbolo contra o imperialismo ianque, triunfo da esquerda. Conseguiu conciliar o atraso ideológico dessa turma com a modernidade operacional e tecnológica, e ser respeitada acima dessas bestices.

Desde sempre políticos fizeram a Petrobras ser maior do que o país. Alguns mais. Menina dos olhos dos militares durante a ditadura, também foi ponta de lança dos petistas. As mãos sujas de óleo negro do ex Lula ao anunciar a autossuficiência brasileira de petróleo – algo que se provou ser mentira pura – que o digam.

Nas campanhas eleitorais do PT, foi sempre estrela de primeira grandeza com a qual reavivava o nacionalismo à la Geisel a serviço do partido. Abusou de capacetes e uniformes da companhia e da acusação de que o adversário tucano queria privatizá-la.

Sob uma avalanche de denúncias de corrupção, neste ano a presença da Petrobras foi maior no campo oposicionista do que na campanha de reeleição. Milimetricamente orientada, Dilma Rousseff bateu e rebateu na tecla de que toda roubalheira – que, ao que tudo indica, financiou o PT e aliados - não passava de orquestração da mídia golpista e de tentativas de denegrir a imagem da empresa e de seu governo.

Dilma nada mais disse. A não ser que de nada sabia.

Venceu o pleito. Mas vai iniciar seu novo mandato com quase 70% dos brasileiros atribuindo a ela a corrupção na petroleira, segundo pesquisa Datafolha. Como disse o procurador-geral da República, “essas pessoas roubaram o orgulho dos brasileiros”. Rodrigo Janot não deu nomes nem excluiu ninguém. Nem mesmo a presidente.

As revelações de Venina complicam tudo ainda mais. Destroem a credibilidade de Graça Foster, que disse na CPI do Congresso não saber o que já sabia. Inviabilizam a sua permanência no mais alto posto da petroleira. E deixam o escândalo sem intermediação, próximo demais do Planalto.

Para Dilma, é uma desgraça ficar sem Graça. Sem ter a amiga para aliviar a indigestão, ela terá de engolir sozinha a jabuticaba. Com a casca e o caroço.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Fantasmas do passado - o que fazer com eles?

Ter queixas do passado é normal. Quem não lamenta uma decisão errada, uma palavra dita em hora imprópria, uma atitude equivocada, um acontecimento fortuito negativo?

Não creio que exista alguém que não se arrependa do que fez, ignore o caminho que trilhou, ou simplesmente se ache permanentemente certo.

O fracasso, o erro, é apenas um evento. Há, portanto, que reconhecê-lo, e trabalhar com afinco para corrigi-lo. 

Faz parte desta tarefa pedir desculpas, voltar atrás, promover mudanças, e também, olhar adiante, sem ansiar demais.

O bardo William Shakespeare escreveu: "lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente." Concordo, mas, o segredo parece estar em fazer os consertos necessários, não vivenciar problemas que ainda não apareceram e viver com seriedade e sabedoria o momento presente.

E quando somos afetados pelo que os outros nos fizeram?

Não há como viver sem adquirir cicatrizes. Podemos aceitar ou rejeitar a maneira como fomos/somos tratados pelas pessoas, mas só depois de curar as feridas do passado, só depois de encontrar as forças para retirar delas o que causa a dor e aquilo que o mantém atado, preso, não haverá pacificação.

Já fiz muitas catarses, me arrependi, mudei, pedi desculpas, tirei a mágoa e a dor de dentro de mim. É preciso que eu saiba, porém, que este é um trabalho contínuo, que me acompanhará até o último dos meus dias.

Quando estou triste, angustiado, ansioso, ou precisando discutir a relação comigo mesmo, gosto de me socorrer na poesia. Principalmente, quando sei que fui o responsável por infligir a dor.

Os poetas fazem algo que não consigo: são sucintos, são simples, econômicos. Todavia, são completos, plurais, definitivos, simbólicos. Mario Quintana costumava dizer que a poesia é uma loucura lúcida. E é essa mistura que encanta e ensina.

Pra mim, poeta é aquele que consegue exprimir e nos sensibilizar, com exatidão e beleza, o que lhe sussurra a alma.

Não foi outra coisa que encontrei nos versos de um sujeito, que muitos achariam improvável eu ter-lhe admiração, sendo ele economista, administrador de empresas, psicanalista, e, transgênero. Quantos me tem na conta de machista e preconceituoso? Muitos, não duvido. É assim que é vista a maioria dos que tem a minha idade, o meu jeito barulhento, a minha mania de ser gozador. Ok, eu compreendo. Mas, nem todo mundo é o que a gente pensa. 

Assim, sem mais digressões, deixem-me lhes presentear com um poema que conheço há muito tempo, e me refugiei nele, para tentar enfrentar mais um dos fantasmas do meu passado:

"A idade de ser feliz, 
por Geraldo Eustáquio de Souza

Existe somente uma idade para a gente ser feliz 
somente uma época na vida de cada pessoa 
em que é possível sonhar e fazer planos 
e ter energia bastante para realizá-los 
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos

Uma só idade para a gente se encantar com a vida 
e viver apaixonadamente 
e desfrutar tudo com toda intensidade 
sem medo nem culpa de sentir prazer

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida 
à nossa própria imagem e semelhança 
e sorrir e cantar e brincar e dançar
e vestir-se com todas as cores 
e entregar-se a todos os amores 
experimentando a vida em todos os seus sabores
sem preconceito ou pudor

Tempo de entusiasmo e de coragem 
em que todo desafio é mais um convite à luta 
que a gente enfrenta com toda a disposição de tentar algo novo, 
de novo e de novo, e quantas vezes for preciso

Essa idade, tão fugaz na vida da gente,
chama-se presente,
e tem apenas a duração do instante que passa ...
... doce pássaro do aqui e agora 
que quando se dá por ele já partiu para nunca mais!"

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O PT complacente



A complacência do PT com seus membros envolvidos em escândalos de corrupção corresponde à própria formação física do partido, que se vendeu à opinião pública - com êxito, admita-se - como a imagem da pureza política quando já nos governos municipais estava envolvido em transações ilegais com empresas de coleta de lixo e licitações fraudulentas.

Os assassinatos de prefeitos como Celso Daniel, de Santo André, e Toninho do PT, de Campinas, são os rastros deixados no plano municipal antes de o PT alçar-se enfim ao plano federal. Já não era mais a virgem pura que se autoproclamava, mas a complacência com as transgressões permitia que sempre voltassem a público como se virgens ainda fossem.

O caso recente, do último fim de semana, é repetição como farsa do que acontecera anteriormente, quando da condenação dos líderes partidários no caso do mensalão. O diretório nacional do PT aprovou uma nova velha regra que prevê a expulsão de qualquer filiado comprovadamente envolvido em escândalos de corrupção.

A regra anterior dizia a mesma coisa, mas foi superada pela realidade do mensalão. A proposta atual definia como "imediata" a expulsão, mas o termo tão radical foi retirado do texto oficial. Quando houve o mensalão, mesmo depois de condenados, nenhum dos líderes petistas foi expulso.

O ex-presidente José Genoino, condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha (crime depois revogado pela revisão de dois novos ministros que entraram no julgamento apenas na parte recursal) assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados por ser o primeiro suplente do PT paulista.

Também o deputado federal João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara, continuou no seu papel de deputado federal por bom tempo, até que as condições objetivas o impediram de continuar a farsa. Quem o PT expulsou de suas fileiras nos últimos anos, quando escândalos de diversos quilates estouraram no seu colo? Apenas seu tesoureiro à época do mensalão, Delubio Soares, que nunca perdeu sua situação de prestígio dentro do partido e foi finalmente reconduzido, antes mesmo do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, numa tentativa de inocentá-lo publicamente.

José Dirceu continuou com tanta importância dentro do PT que se tornou um consultor de empresas altamente requisitado justamente por seu prestígio pessoal junto aos presidentes petistas e demais autoridades governamentais. O presidente do PT, Rui Falcão, descartou na ocasião qualquer possibilidade de expulsão do partido dos condenados no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O estatuto do partido determinava a expulsão de filiados condenados "por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitado em julgado", mas segundo Falcão,"nenhum deles está incluído (na punição). Não houve desvio administrativo. Quem aplica o estatuto somos nós. Nós interpretamos o estatuto".

Agora, o Diretório Nacional manifestou "a disposição firme e inabalável de apoiar o combate à corrupção. Qualquer filiado que tiver, de forma comprovada, participado de corrupção, deve ser expulso”. Mas, como já vimos, a suposta expulsão não será "imediata", como dependerá da interpretação exclusiva do partido se a participação em corrupção foi devidamente comprovada.

Vamos dar tempo ao tempo, no caso do petrolão ainda em curso. A relação do partido com seus filiados envolvidos em atos de corrupção, no entanto, não dá margem a esperanças de que o PT resolveu, mais uma vez, "se refundar". Veja-se o caso do ex-petista André Vargas, que acabou se desfiliando do partido, mas contou com o apoio dos companheiros para retardar ao máximo sua cassação.

Agora, que a cassação enfim irá ao plenário da Câmara, veremos quantos petistas ajudarão a não dar quorum para a punição.

Então, é de se perguntar, a mais recente resolução do Diretório Nacional do PT não atinge o "pratrasmente", como diria o prefeito Odorico Paraguaçu, personagem inesquecível de Dias Gomes? É claro que não, assim como não atingirá os atuais envolvidos no petrolão. A resolução petista é mais uma daquelas para ganhar tempo e tentar reassumir a pose de virgem pura, que, com a complacência, finge ser o que nunca na verdade foi.


Por Merval Pereira

terça-feira, 25 de novembro de 2014

E a grana da Petrobras? As formigas comeram

por Ricardo Noblat

Há muitas perguntas sobre o escândalo da Petrobras que suplicam por respostas.

A mais óbvia: é possível que Dilma ignorasse o mar de lama capaz de afogar a empresa que ela sempre controlou desde o primeiro governo do presidente Lula?

Pois antes de suceder José Dirceu na chefia da Casa Civil, Dilma foi ministra das Minas e Energia. Presidiu o Conselho de Administração da Petrobras entre 2003 e 2010.

Nada de relevante se faz na Petrobras sem autorização prévia do Conselho.

Ao deixar o Conselho em março de 2010 para concorrer à presidência da República, Dilma comentou que se sentia feliz pelo que fizera.

“É um orgulho passar pelo Conselho de Administração da Petrobras, e maior ainda presidi-lo”, disse. “Você tem uma nova visão do Brasil. Vê a riqueza do Brasil”.

De fato, ela viu. O que não viu, como diria mais tarde, foi por culpa dos outros. Elas é inocente. Completamente.

Não viu com a antecedência desejável um dos piores negócios feitos pela Petrobras – a compra da refinaria Pasadena, nos Estados Unidos.

Ela pertencia à empresa belga Astra Oil, que a comprara em 2005 por US$ 42,5 milhões.

Um ano depois, a Petrobras pagou US$ 360 milhões. E só por 50% da refinaria. Três anos depois, pagou mais US$ 639 milhões pelos outros 50%. Demais, não?

Os jornais belgas celebraram a venda da Pasadena à Petrobras como o negócio do século. Para a Astra Oil, é claro.

Dilma alegou no ano passado que se baseara em “informações incompletas” e em um parecer técnico “falho” para aprovar a compra da primeira metade da refinaria.

E nós com isso?

O Procurador Geral da República aceitou a alegação e culpou a diretoria da Petrobras pelo mau negócio. O Tribunal de Contas da União (TCU) também livrou a cara de Dilma.

Foi Lula quem disse que Dilma era melhor gestora do que ele. Imagine!

No dia 29 de setembro de 2009, segundo a edição mais recente da revista VEJA, Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobras, informou a Dilma por e-mail que o TCU havia recomendado ao Congresso a paralisação das obras das refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e Getúlio Vargas, no Paraná, e de um terminal petrolífero no Espírito Santo.

Esquisito comportamento, o de Paulo Roberto. Por que se dirigiu a Dilma se era subordinado a José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras?

No dia seguinte, Dilma reclamou de público da determinação do TCU de paralisar obras do governo federal: “É impossível a paralisação. Os custos são grandes”. Lula deu-lhe razão.

Quase quatro meses depois, Lula vetou uma decisão do Congresso que suspendia a execução de quatro obras da Petrobras salpicadas de fortes indícios de corrupção apontados pelo TCU.

Em momento algum, Lula falou em corrupção. Ao justificar seu veto, preferiu se referir vagamente a “pendências”, informa o jornal O Estado de S. Paulo.

O veto acabou mantido pelo Congresso de folgada e bovina maioria governista.

Graças à decisão de Lula, a Petrobras injetou mais de R$ 13 bilhões nas refinarias de Abreu e Lima e Getúlio Vargas, e em complexos petroquímicos do Rio de Janeiro e de Barra do Riacho, no Espírito Santo.

As quatro obras foram superfaturadas. A de Abreu e Lima começou custando R$ 2 bilhões. Está por R$ 20 bilhões.

Nos governos de Lula e Dilma, a Petrobras virou o maior cliente das empreiteiras cujos donos e principais executivos acabaram presos há 10 dias.

Por sinal, Lula viaja pelo mundo à custa das empreiteiras e na condição de lobista delas.

O TCU calcula que a Petrobras nos últimos quatro anos fechou negócios no valor de R$ 70 bilhões. Desse total, cerca de 60% não dependeram de licitação. De nenhuma licitação. A lei permite que a Petrobras proceda assim.

Um negócio no Espírito Santo, por exemplo, rendeu à empreiteira Mendes Júnior o adicional de R$ 65 milhões pagos pela Petrobras por causa da saúva-preta, uma espécie de formiga em extinção cuja descoberta teria atrasado a obra em 15 dias.

sábado, 22 de novembro de 2014

Pedido de Natal


Estou pedindo com antecedência pra ver se o Papai Noel manda um presente desses, este ano, pra mim. Agradeço, desde já.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Nove coisas que pessoas ricas fazem de diferente todo dia; uma delas é não assistir televisão

1. Ricos sempre têm objetivos à vista.

Pessoas endinheiradas não apenas têm objetivos claros, mas costumam escrevê-los. Ter um objetivo pode parecer algo etéreo, mas para essas pessoas não: ele precisa ser realizável, além de necessitar de trabalho físico para isso.

2. Eles sabem o que é preciso ser feito hoje.

A maioria tem uma lista de afazeres do dia, assim como conseguem completar essa lista.

3. Eles não assistem TV.

Pessoas com dinheiro não deixam de assistir TV porque mantém um autocontrole invejável, mas simplesmente porque gastam seu tempo com outras atividades, em especial a leitura.

4. Eles leem, mas não por prazer.

A leitura não é necessariamente guiada pelo desejo de mais conhecimento e capacitação, mas 88% deles leem pelo menos meia hora diária com esse objetivo, comparado a 2% dos mais pobres que participaram da pesquisa.

5. Eles gostam bastante de audiobooks.

Não só usam bastante, mas principalmente no trajeto de casa ao trabalho e vice-versa.

6. Eles trabalham mais do que o necessário.

Por necessário, entenda o que o trabalho ou o chefe pede. Apesar de 86% dos entrevistados ricos trabalharem mais de 50 horas por semana (contra 42% dos pobres), apenas 6% deles se dizem infelizes por causa do trabalho.

7. Eles não esperam ficar ricos da noite para o dia.

Enquanto 6% dos ricos afirmaram apostar na loteria, este percentual aumenta para 77% entre os mais pobres.

8. Eles se preocupam com saúde.

57% dos ricos dizem contar calorias todos os dias, contra apenas 5% dos mais pobres.

9. Eles tomam conta do seu sorriso.

62% dos ricos disseram passar fio dental diariamente, contra 16% dos entrevistados pobres.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Problemas na Petrobras levantam questões mais amplas para investidores, por Landon Thomas Junior, New York Times



Quando a empresa mais endividada do mundo adia a divulgação de resultados devido a um escândalo de corrupção crescente, uma oscilação nos mercados é de se esperar.

Tal foi o caso na sexta-feira para a gigante petrolífera brasileira Petrobras, que viu a queda de suas ações de 8 por cento (antes de recuperar ligeiramente) e os rendimentos de seus títulos subirem acentuadamente com a notícia de que executivos da empresa no Brasil tinham sido presos como parte de uma ampla investigação de corrupção.

A presidente Dilma Rousseff, que era a chefe do conselho da Petrobras antes de se tornar presidente em 2010, não é a única pessoa, no entanto, que está sentindo a dor com os problemas da empresa.

Poucas empresas de mercados emergentes são tão amplamente mantidas por investidores de ações e obrigações como a Petrobras, há muito vista como uma peça de referência para investidores que procurem exposição a mercados em desenvolvimento de rápido crescimento.

Desde o fundo de mercado emergente Oppenheimer, de 42 bilhões dólares - onde é o quarto com maior participação - até o gigante Pimco, a Petrobras é um investimento central no mercado emergente.

De acordo com dados da Bloomberg, Pimco é o maior detentor de dívida da empresa - segurando 4,3 por cento, com o Fidelity sendo o segundo maior detentor, com 2,5 por cento.

Na verdade, mais do que qualquer outra empresa de mercado emergente, a Petrobras tem aproveitado a tendência das empresas de gestão de ativos - a maioria com sede nos Estados Unidos - substituírem os bancos como a principal fonte de financiamento da dívida.

Os economistas estimam que os detentores de bônus estrangeiros financiaram cerca de metade do enorme programa de investimentos da empresa. E como a empresa afirmou que espera investir US$ 200 bilhões nos próximos anos para explorar novos locais de petróleo, os investidores da Pimco, BlackRock e Fidelity serão convidados a intensificar os seus empréstimos, se a empresa cumprir as suas metas.

Atraídos por rendimentos robustos em um ambiente de baixa taxa de juros, o dinheiro até à data tem rolado.

A Petrobras, nos últimos cinco anos, já vendeu 51 bilhões de dólares em títulos para investidores globais famintos, quase um quarto de todas as obrigações empresariais que emanam do Brasil e mais do que qualquer empresa de mercados emergentes, de acordo com dados compilados pela Thomson Reuters. Mas economistas como Hyun Song Shin do Banco de Compensações Internacionais, uma casa de pesquisa para os bancos centrais globais, vêm alertando há algum tempo sobre os riscos envolvidos em ter empresas de mercados emergentes tão dependentes de investidores de varejo inconstantes nos Estados Unidos.

E a partir de uma perspectiva de estabilidade financeira, os reguladores do Federal Reserve de Nova York têm advertido contra empresas de gestão de grandes ativos que tem posições muito grandes em dívidas de mercados emergentes de alto risco.

O temor é que o pânico de venda em uma empresa ou país pode se espalhar rapidamente - uma vez que estes países e as empresas estão tão largamente alavancados - levando a um contágio de investimento mais amplo.

Por enquanto, isso não parece ser o caso, com a bolsa de valores brasileira perdendo apenas 1 por cento na sexta-feira.

Mas, com os investidores amplamente inquietos com os mercados emergentes, dada a perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos e moedas locais mais fracas contra um dólar forte, a perspectiva de que a Petrobras pode ser a chama para uma conflagração maior no Brasil não pode ser totalmente descartada.

"Isso definitivamente levanta questões mais amplas", disse Gary N. Kleiman, um consultor de investimentos de mercados emergentes. "Muitos investidores serão forçados a vender e isso pode levar a um mais amplo sell-off no Brasil e na América Latina."

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A terra treme

A terra não para de tremer. Desde que Dilma "ganhou" as eleições (possivelmente fraudadas), o que estava represado, de um lado, pela necessidade do governo de esconder do público brasileiro a verdade sobre inflação, contas públicas, desmatamento, pobreza, Ideb, dívida pública, entre outros muitos temas; e de outro, pela ação pouco republicana de tribunais e da própria PF, que esperaram o fim do pleito para intensificar as investigações das gravíssimas denúncias do ex-diretor da Petrobras, Paulo Cesar Costa e o doleiro Alberto Youssef,  não tem dia que não surja uma novidade asquerosa ligada ao PT, a petistas ou apaniguados, ou aos dois.
A prisão de dirigentes de empreiteiras é uma péssima notícia para a Dilma. O instituto da delação premiada pode fazer com que alguns deles falem o que sabem. E aí pode-se chegar a Lulla, ou à própria Dilma. Daí o desespero de José Eduardo Cardozo e outros petistas de alto coturno, tentando minimizar e/ou abafar os eventos desastrosos dos últimos dias.
Minhas esperanças aumentaram. Acredito que o fio da meada é esse. Seguir o dinheiro. Vão acabar chegando ao chefe oculto do mensalão, quiçá à mentirosa e incompetente que (por enquanto) mora no planalto.

Desça do palanque, Dilma!, por Ricardo Noblat

Na Austrália, do outro lado do mundo, sob o efeito do fuso horário, talvez, como se ainda estivesse em cima de um palanque, certamente, a presidente Dilma Rousseff concedeu sua primeira entrevista coletiva sobre o arrastão de donos e executivos de empreiteiras que marcou na semana passada mais uma etapa das investigações sobre a roubalheira na Petrobras. Perdeu uma rara oportunidade de ficar calada.

Dilma foi vítima da síndrome do terceiro turno que não acomete apenas a oposição. Disse um monte de bobagens, invenções e falsas verdades para uma plateia de jornalistas que se deu por feliz em anotar o que ouviu.

E assim procedeu como se ignorasse que o distinto público conhece cada vez melhor os vícios e espertezas dos seus representantes. Vai ver que ela ignora mesmo.

Vamos ao que disse.

Teve o atrevimento de afirmar de cara lavada que “pela primeira vez na História do Brasil” um governo investiga a corrupção. E não satisfeita, culpou governos passados pela corrupção que acontece hoje na Petrobras.

Stop!

O governo dela não investiga coisa alguma. Polícia Federal e Ministério Público investigam. Os dois são órgãos do Estado, não do governo.

Corrupção existe em toda parte e o tempo inteiro. Mas enquanto não se descobrir que houve corrupção na Petrobras em governos anteriores aos do PT, vale o que está sendo escancarado pelas investigações: o PT privatizou, sim, a Petrobras. Apropriou-se, sim, dela.
Corrompeu-a, sim. E usou-a, sim, para corromper. Depois de Lula, Dilma é a figura mais importante da Era PT.

Adiante.

Para Dilma, o escândalo cuja paternidade ela atribui a outros governos e cuja decifração reivindica para o seu, “poderá mudar o país para sempre. Em que sentido? No sentido de que vai acabar com a impunidade”.

Stop!

Sinto muito, Dilma, mas o escândalo que poderá mudar o país para sempre, e que acabou com a impunidade, foi o do mensalão. Quer tirar de Lula a primazia?

Dizer que “essa questão da Petrobras “já tem um certo tempo” e que “nada disso é tão estranho para nós” é uma revelação digna de nota.

Primeiro porque o governo dela se comportou como se nada soubesse quando estourou o escândalo. Segundo por que o máximo que ela insinuou a respeito foi que havia demitido Paulo Roberto Costa, ex-diretor da empresa, réu confesso.

Ora, ora, ora.

“Paulinho”, como Lula o chamava, saiu da Petrobras coberto de elogios pelo Conselho de Administração da empresa presidido por Dilma até ela se eleger presidente da República.

Foi um dos 400 convidados de Dilma para o casamento da filha dela. E ao depor na CPI da Petrobras, contou com a proteção da tropa do governo. Dilma nada fez para que não fosse assim.

Adiante, pois.

O escândalo da Petrobras não dará ensejo à revisão dos contratos do governo com as principais empreiteiras do país, avisou Dilma. Muito menos a uma devassa na Petrobras.

“Não dá para demonizar todas as empreiteiras. São grandes empresas”, observou Dilma. “E se A, B ou C praticaram malfeitos, atos de corrupção, pagarão por isso”.

Stop!

Quer dizer: mesmo que reste provado que as nove maiores empreiteiras do país corromperam e se deixaram corromper, os contratos que elas têm com o governo fora da Petrobras não serão revistos.

Não parece razoável que empresas envolvidas com corrupção num determinado lugar possam ter se envolvido com corrupção em outros?

Por fim: se a Petrobras não pede uma devassa é só porque Dilma prefere que seja assim.

Corrupção sistêmica, por Merval Pereira


O escândalo da Petrobras está produzindo reações curiosas no governo, alguns até mesmo engraçados, se o momento não fosse trágico. Anuncia-se que o PT pretende questionar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a escolha, por sorteio, do ministro Gilmar Mendes para relator das contas da campanha presidencial do partido em 2014. Por sorteio, ressalte-se, e a mando do presidente do TSE, ministro Dias Toffoli, o mais próximo ao PT de todos os integrantes do Supremo Tribunal Federal. Nunca vi tamanha confissão de culpa.

 Também o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo deitou falação sobre a politização das investigações, insinuando que a oposição está querendo ter um terceiro turno da eleição que perdeu. Logo quem, o mesmo que acabara de dizer que a presidente Dilma havia determinado que as investigações prosseguissem, doam a quem doer. Como se a presidente tivesse o poder de mandar parar as investigações se quisesse.Além do mais, Cardozo abriu uma investigação para punir delegados envolvidos na Operação Lava-Jato por terem expressado opiniões pessoais de crítica ao governo e apoio à candidatura oposicionista em uma página do Facebook fechada ao público.

Com isso, os petistas mais afoitos querem identificar razões partidárias para os vazamentos de partes dos depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Yousseff. Tanto os membros do Ministério Público quanto o juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações, saíram em defesa dos delegados da Polícia Federal, e não fariam isso se vissem no comportamento de algum deles desvios que pudessem prejudicar as investigações.

O importante é que o sistema que está sendo revelado mostra que toda sustentação política dos governos petistas é montada na base da corrupção, os partidos indicando diretores de órgãos estatais simplesmente para deles retirar dinheiro para financiar suas campanhas, e claro que os benefícios pessoais se impõem. Então dividem os órgãos estatais e os ministérios por partidos, e cada um que é nomeado sabe exatamente por que está sendo nomeado, para que e o que tem que fazer. E a investigação já mostrou que o mesmo esquema existe em outras áreas do governo, que ainda serão investigadas.

É evidente que essa maneira de fazer política, que foi aprofundada absurdamente nos anos petistas, tem que parar, não há país que aguente uma situação dessas por tanto tempo. Esse sistema de distribuição de ministérios para partidos, de divisão de diretorias de empresas públicas para partidos para montagem de governo está falido.

Não apenas isso, prejudica a imagem do país no exterior e afugenta os investidores sérios, prejudica a economia do país e prejudica sobretudo os mais pobres pois monta-se um governo disfuncional.  É preciso mudar, e a crueza dos fatos vai se encarregar dessa mudança. Provavelmente no próximo mês, ou no máximo no início do próximo ano vamos ter uma relação de 70 a 100 políticos desfilando diante da opinião pública como implicados nesses desvios de dinheiro da Petrobras.

Serão governadores, senadores, deputados, ex-governadores, ex-senadores, ex-deputados, a maior parte será indiciada e julgada pelos tribunais superiores. Estamos na verdade passando por um processo que está em curso desde o mensalão. Um processo que está sendo construído, depurado, e a consequência dessa depuração deve ser a mudança de nosso sistema político-eleitoral.

É muito difícil fazer uma reforma dessa profundidade com o Congresso, pois em tempos normais os deputados e senadores querem manter o sistema que os elegeu. Mas numa crise como a que estamos passando, e ainda vai piorar, é o momento da oportunidade para mudar. O PT não inventou a corrupção, mas inventou um método sistêmico de corrupção que perpassa todo o organismo governamental. Isso nunca houve.

Havia esquemas de corrupção localizados, pessoas corruptas atuando, mas nunca houve um esquema desse porte organizado pelo governo. A ideia de que é tudo igual ajuda a quem está envolvido com essas denúncias. Não é todo mundo igual, nunca houve um partido que tenha chegado ao poder e que tenha montado um esquema dessa amplitude.

Além do mais, esse esquema de corrupção que o PT montou nesses 12 anos faz com que o país não tenha condições de se desenvolver. Uma estrutura de 40 ministérios para financiar sua base eleitoral inviabiliza qualquer governo, perdemos competitividade, perdemos produtividade. Além de todas as decisões de cunho econômico equivocadas, temos um governo disfuncional.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Merval: Não aprenderam nada

O que é mais chocante nesse episódio do descumprimento da meta de superávit primário, ferindo a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é a postura dos principais dirigentes do governo, a começar pela própria presidente Dilma, a prenunciar que nada será alterado no segundo mandato.

O secretário do Tesouro Arno Agostin, que deve se transformar no segundo mandato em um conselheiro especial com amplos poderes no Palácio do Planalto, disse recentemente, para justificar o déficit, que o governo fez “o que era melhor para o país”, como se isso dependesse da vontade de alguns poucos iluminados e tivesse que ser aceito por toda a sociedade como uma verdade irreversível.


O comportamento da ministra do Planejamento Miriam Belchior, ao encaminhar o pedido formal ao Congresso para mudar a meta combinada anteriormente, também foi espantoso. Além de não apresentar um documento com uma justificativa técnica razoável, ela ainda se deu ao luxo de não informar qual o superávit que o governo estaria disposto a cumprir este ano.


Pela proposta original da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o governo se comprometia a fazer um superávit equivalente a 3,1% do PIB e podia abater da meta R$ 67 bilhões de obras e desonerações. A meta já fora reduzida para 1,9% do PIB com a aprovação do Congresso, mas agora o governo, além de não ter uma meta a propor, quer que seja permitido o abatimento de tudo o que for gasto com o PAC e desonerações. “Faremos o maior superávit possível”, limitou-se a dizer a ministra do Planejamento, sem se comprometer com uma nova meta.


Mesmo esse vago compromisso já parece não ser possível de cumprir, pois analistas econômicos já garantem que teremos mesmo um déficit ao final do ano. Com o déficit de R$ 20,399 bilhões nas contas do governo central em setembro, o resultado acumulado no ano passou de um superávit para um déficit primário de R$ 15,705 bilhões, a primeira vez que isso ocorre desde 1997, quando teve início da série histórica.


Esse déficit tem explicações objetivas: o aumento dos gastos do governo nas eleições, desonerações de tributos e crescimento reduzido – que deve ser perto de zero este ano -, o que reduziu também a arrecadação de impostos. O governo, porém, atribui os problemas na economia a fatores externos, como a crise internacional e fenômenos climáticos como a seca, que contribuiu para fomentar a inflação com o encarecimento de alimentos.


A presidente Dilma entrou no debate na sua viagem para a reunião do G-20 e resolveu nos comparar aos seus integrantes. "Dos 20 países do G20 (grupo das maiores economias do mundo), 17 estão hoje numa situação de ter déficit fiscal. Nós estamos no zero. Estamos até numa situação um pouco melhor". Da palavra da ministra Belchior para a presidente reeleita, já passamos de um superávit qualquer para zero, e com louvor.


Mas Dilma foi adiante: "Nós temos uma das menores dívidas líquidas sobre o PIB, 35%, e a média dos países do G20 é acima de 60%. A nossa situação é bastante diferenciada. Nenhum deles está cumprindo superávit primário", ressaltou. Como sempre, a presidente ressaltou o que lhe é favorável, e esqueceu o que neutraliza esse raciocínio. A diferença é que um país como o Brasil rola sua dívida líquida pagando cerca de 15% de juro real, enquanto os demais países em melhores situações fiscais pagam cerca de 1%. Um caso emblemático é o do Japão, que tem 200% de dívida líquida, mas paga juros negativos.


E por que isso acontece? Justamente devido à nossa fragilidade fiscal provocada por contabilidade criativa que não dá confiança aos credores. Quando o governo dá dinheiro ao BNDES, cresce a dívida bruta, e a líquida fica inalterada. Mas os juros sobre a dívida líquida sobem. Mudar novamente a meta de superávit primário, sem se comprometer com meta alguma, é o pior caminho que o governo poderia trilhar, especialmente quando se prepara para um novo mandato e, com essas atitudes, manda sinais de que teremos mais do mesmo nos próximos anos.


É sinal de que não aprenderam nada com os problemas que criaram para eles próprios.