"De tanto ver triumphar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver prosperar a deshonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Ruy Barbosa

sábado, 21 de março de 2015

A crise é o PT

Rui Falcão, presidente do PT, pede punição às redes de TV, que, segundo ele, deram publicidade às manifestações do dia 15. Confunde notícia com publicidade

por Ruy Fabiano


Diz-se que uma foto vale mais que mil palavras – e um símbolo mais que mil fotos. Uma das primeiras providências que Lula tomou, ao chegar à Presidência da República, foi mandar recortar na grama do jardim do Palácio da Alvorada uma imensa estrela do PT e pintá-la de vermelho.

Estavam ali simbolizados os valores que pautariam os sucessivos governos petistas. Governo e partido – pior: Estado e partido – passaram a ser uma coisa só, numa linha de raciocínio segundo a qual o que é bom para o PT é bom para o Brasil.

Portanto, apenas o PT – e ninguém mais – sabe o que é bom para o Brasil. Dentro dessa lógica, cabem todo o Mensalão, o Petrolão e outras caixas pretas ainda não vasculhadas (BNDES, Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica etc.). O PT inventou a corrupção do bem – e a defende com ódio sincero.

Ainda que a estrela ajardinada tenha sido removida semanas depois, em face das críticas que provocou, seu simbolismo mostrou-se irremovível. “O Brasil é nosso”, dizem os petistas. Lula, no recente ato da ABI, bradou que “a Petrobras é nossa” – isto é, deles, que, com base nisso, a sugaram até a falência.

Num de seus inumeráveis arroubos de palanque, registrados no Youtube, Lula diz que só não descobriu o Brasil porque “não estava vivo naquela época”. Se estivesse, é o que se deduz, teria se antecipado a Pedro Álvares Cabral. Como não foi possível, joga ao lixo os 500 anos que o precederam e inaugura uma nova história.

Esse sentimento de posse em relação ao país e suas instituições explica a, digamos assim, dificuldade do PT em aceitar a alternância no poder. São capazes, nas palavras da candidata Dilma Roussef, de “fazer o diabo” para ganhar as eleições. E fizeram e ganharam, mas o “diabo” mandou a conta, que aí está.

A insistência com que o PT repete que venceu as eleições sugere que ele mesmo não está convencido disso. Venceu, mas como? Mediante compromissos que não está cumprindo e não terá como cumprir. Não só: venceu por estreita margem, que, numa pesquisa, indicaria empate técnico.

Não apenas os 51 milhões de eleitores de Aécio rejeitaram o PT. O que dizer dos 37 milhões que não votaram em nenhum dos dois? De que lado estão? Dilma não parece ter entendido que, na soma total, foi eleita por uma minoria – e mesmo esta acabou frustrada pelo descumprimento das promessas eleitorais.

Isso explica o fato de estar refém de vaias, manifestações e panelaços. Para se locomover, precisa acionar um vasto aparato de blindagem, que contrasta com o fato de estar no terceiro mês deste segundo mandato. O “Fora FHC”, acionado menos de um mês após a posse de Fernando Henrique - reeleito no primeiro turno, em 1999 -, não foi um grito das ruas.

Foi concebido por alguns aloprados do PT, sob o comando do então governador gaúcho Tarso Genro. Não prosperou exatamente porque faltou o grito das ruas. Agora, acontece o contrário: os tucanos se opõem ao “Fora Dilma”, enquanto as ruas bradam por ele. Que governador petista se disporia às vaias de sua base e do adversário – como aconteceu quinta-feira passada, em Goiânia, com o governador tucano Marcone Perillo – para defender a presidente em nome da tolerância política?

O sentimento petista de posse legítima e definitiva do país dificulta a negociação da crise. Documento interno vazado da Secretaria de Comunicação da Presidência da República recomenda que se invista nos blogs sujos – aqueles pagos com dinheiro público para difamar adversários – e nos “guerrilheiros” (sic) virtuais.

Rui Falcão, presidente do PT, pede punição às redes de TV, que, segundo ele, deram publicidade às manifestações do dia 15. Confunde notícia com publicidade: se a notícia é boa, é jornalismo; se é ruim, é publicidade golpista. Como não noticiar dois milhões de pessoas nas ruas do país contra o governo?

O fracasso das manifestações do partido no dia 13 indica que já não manda nas ruas. O “exército do Stédile” carece de mão de obra. Não bastam sanduíche de mortadela e cachê. Sem classe média – a mesma que levou o PT ao poder e hoje o abandona -, não há movimento nas ruas, não há revolução, não há nada.

Marx, Lênin, Stalin, Fidel Castro, Che Guevara eram todos de classe média. É onde se produz e se põe em cena a chamada massa crítica de qualquer sociedade, à direita ou à esquerda.

A “elite branca” – termo racista (e, portanto, criminoso) com que o PT busca satanizar a classe média e apostar na divisão do país – é responsável pela construção do PT, que não possui (nunca possuiu) um único negro em seu comando.

Lá estão os olhos azuis de Marta Suplicy, João Pedro Stédile, Guido Mantega, Gleisi Hoffmann, Renato Duque, entre outros. O mesmo partido que diz ter levado 20 milhões à classe média agora a abomina e discrimina racialmente.

Um partido nutrido nas elites acadêmicas de São Paulo tem tanta legitimidade para rejeitar a “elite branca” quanto para defender a Petrobras. E o resultado de tanta contradição para não “largar o osso” (vide Cid Gomes) é que o partido não vê saída para a crise – e por um motivo simples: ele próprio é a crise.

terça-feira, 17 de março de 2015

Por que insistir em pedir o impeachment?

Por Paulo Rio de Janeiro

O recado que os dois patetas trouxeram à nação a ninguém interessa ou merece atenção. Pacote anti-corrupção? Reforma política? Tão de sacanagem, só pode.

Como é que o mesmo partido que HOJE foi denunciado pelo PGR como tendo recebido mais de 130 (CENTO E TRINTA) MILHÕES DE DÓLARES de propina pode se declarar apto a baixar um pacote que combate a eles mesmos? 

A reforma política desejada pelo PT é uma que eles já praticam: financiar suas campanhas com dinheiro público. Aliás, fazem isto há bastante tempo! Estão zombando da nossa cara, com certeza. Cada mandato de deputado custa ao país, por deputado, por exemplo, quase 10 milhões. A Câmara, sozinha, 5 bilhões. Afinal, quem acha bom dar dinheiro pra esses caras? É uma piada, de mau gosto, sem dúvida. 

A verdade é que os dois meninos de recado vieram a público para dizer que a presidAnta IGNORA completamente o que as ruas estão dizendo, e que vai seguir, arrogantemente, com o projeto de poder do seu partido, do seu mentor e dela própria, e que quem não gostar, que se dane.

Fica cristalino, diante disto, que só o impeachment, pode resolver a crise política instaurada no país. E por que? O que justificaria o processo político?

Vamos lá, vamos ver alguns pontos:

a) O povo, em sua maioria, não mais a respeita. Onde a Dilma vai, a vaia vai atrás. Toda vez que abre a bocarra, recebe de volta um panelaço. A vontade popular é que ela saia, de preferência levando para bem longe seus correligionários, acólitos, apadrinhados e o restante da canalha. 

b) O povo - sempre ele - não engoliu o pacote fiscal porque entende que constitui estelionato eleitoral. Se tivesse sido sincera, aberto o jogo, teria sido analisado quem tinha a melhor proposta para enfrentar a crise. Ao contrário, ela mentiu, varreu a crise para baixo do tapete. Ela esqueceu de combinar com a economia, a matemática, a lógica e o mercado. Estes, a trouxeram de volta para a dura realidade, que já a fez declarar estar sem opções para combater. Fraude também é crime.

c) a roubalheira desenfreada e sistêmica, cujo volume conhecido é exorbitante, indecente e equivale a um autêntico genocídio, feita quase a céu aberto, vai se provar, espalhada em toda a administração pública, incluindo as estatais, os bancos públicos, as autarquias, e todo o resto. Não é crível, que a presidAnta, íntima conhecedora dos meandros da Petrobras e demais órgãos do governo, e da voracidade por dinheiro de seus pares, não tivesse conhecimento do imenso descalabro ocorrido na Petrobras, pra citar apenas um exemplo. Mesmo que assim o fosse, está muito claro que ela foi omissa, em ambos os mandatos, mantendo uma diretoria inteira suspeita, a tentar apagar-lhe as digitais dos desmandos. Isto é intolerável!

d) o PT tem associações imorais com notórias ditaduras e as favorece com perdões de dívidas, empréstimos secretos e outras benesses, em claro prejuízo para o erário publico e para os brasileiros. Isto constitui uma imoralidade e um achincale com quem busca o SUS e está morrendo com a seca. O PT não foi colocado no poder para ajudar bandidos internacionais a enriquecer.

e) A compra de Pasadena é um capítulo à parte, cujo enredo oficial se aproxima de uma história de terror, com o governo querendo nos fazer crer que a "anta" assinou autorização para a compra, sem ler, e que os prejuízos monstruosos não podem ser responsabilizados a ninguém. O nome disso é incompetência, incapacidade, irresponsabilidade e improbidade, que incorrem em prevaricação, ou seja, em crime contra a administração pública.

f) Apesar de se dizer amigo dos pobres, "nuncanestepaiz" o empresariado se deu tão bem. O empresariado companheiro, bem entendido. A caixa preta ainda não foi aberta, mas, antevê-se que o rombo no BNDES, com a drenagem de recursos públicos para os bolsos de amigos, quase sem custo, alcança cifras astronômicas, que vão transformar o gigante petrolão em trocado. Esta conta é, simplesmente, impossível de pagar.

g) a corrupção tornou-se um método e, alguns dos que foram pegos, apesar da demora, foram levados à cadeia. Ao entrar, ergueram os punhos, como se heróis fossem, e continuaram sendo tratados pelo partido desse jeito, em um claro desprezo à opinião pública e à Justiça

h) o governo se vale de todos os modos e maneiras de se manter no poder - declarou que o faria na campanha - e não se abstém de comprar parlamentares, financiar campanhas eleitorais por meio de verbas suspeitas, insistir em tentar calar os meios de comunicação e vozes dissonantes, entre outras faltas de republicanismo. Faz isso sob uma capa de democracia, mas, nos bastidores age contra ela. A quantidade de crimes neste item é um absurdo!

g) Dilma e Lula são maus governantes. É mentira que ela é uma "gerentona", sequer foi capaz de tocar uma loja de 1,99. Já Lula é apenas um parvo, um canalha que se beneficiou das bases econômicas legadas por FHC, de uma conjuntura internacional favorável, e nem isso soube aproveitar. Os erros de gestão de ambos são inúmeros, absurdos, geradores de prejuízos enormes ao Brasil. A multiplicação dos custos de obras públicas, que nunca terminam, que são mal planejadas, mal avaliadas, mal geridas, são um câncer a ser extirpado. O comprometimento, por exemplo, da refinaria Abreu e Lima, que teve seus custos de construção elevados de R$ 2 bilhões para R$ 20 bilhões, a transposição do rio S. Francisco e muitas outras serão uma fonte de prejuízos durante um longo tempo.

Poderia continuar elencando, indefinidamente, as razões pelas quais me posiciono entre os que consideram o impeachment uma necessidade. O Brasil precisa sair do jugo desta esquerda retrógrada, corrupta, canalha, arrogante, oportunista e espoliadora. Ou o Brasil acaba com o PT, ou o PT acaba com o Brasil. Podem contar com isto.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Rumo à alternância de poder

por Merval Pereira

O PT está indelevelmente ligado à corrupção, depois do mensalão e do petrolão. As manifestações de ontem foram, sobretudo, contra a continuidade do PT no governo, e a ampliação do alcance dos gritos de “Fora Dilma” indica muito mais a inconformidade de um eleitorado que foi enganado na campanha eleitoral do que uma tentativa golpista.

Se fossemos um país parlamentarista, o governo já teria sido derrubado. A maioria no Congresso existe apenas no papel, pois em todas as votações recentes o governo tem sido minoritário, mesmo quando consegue evitar que os vetos da presidente Dilma sejam derrubados.

Se a eleição presidencial fosse realizada hoje, Dilma não seria reeleita, apontam as pesquisas de opinião, que lhe dão também um apoio de apenas 7% da população. Se a percepção generalizada valesse, o Congresso teria condições de aprovar o impeachment, por que a maioria da população está convencida de que a presidente Dilma sabia o que estava acontecendo na Petrobras, mesmo que não tenha se beneficiado como pessoa física do dinheiro desviado.

Mas se beneficiou politicamente, desde a eleição de 2010. Como somos presidencialistas, até que se prove que a presidente Dilma sabia o que estava acontecendo, não há condições técnicas nem políticas para o processo de impeachment.

Mas a presidente já perdeu a legitimidade para governar, está desacreditada pela maioria da população, pois é generalizada a sensação de que desde que os partidos políticos passaram a nomear os diretores da Petrobras, quando ela era ministra das Minas e Energia, instalou-se oficiosamente na estatal sob a sua subordinação um esquema corrupto que agora está sendo revelado na Operação Lava-Jato.

Isso no governo Lula que marca, segundo o gerente Pedro Barusco, o momento em que a corrupção passou a ser institucionalizada na Petrobras, como parte de um projeto político de manutenção do poder.

Para recuperar a legitimidade política, teria que se reinventar, ser uma outra Dilma, o que parece impossível. Anunciar novos pacotes só vai aumentar a irritação do povo, enquanto a inflação alta e o crescimento negativo vão corroendo o poder de compra do cidadão.

Sendo assim, continuará governando, pois foi eleita legalmente, em meio a crises políticas e econômicas cada vez mais graves até que a eleição presidencial de 2018 permita a alternância de poder que por pouco não se deu em 2014 e é uma das bases da democracia. Isso se as investigações da Operação Lava-Jato não chegarem às provas contra ela antes da próxima eleição presidencial, ou se não perder as condições políticas de ficar à frente do governo.

domingo, 15 de março de 2015

Em meio a tudo isso, a saudade também está presente

Há 7 anos atrás, por volta das 6 da manhã deste mesmo dia 15 de março, morria a minha muito querida avó materna. "Voviginha", era assim que eu a chamava quando pequeno. Ela também era conhecida como "mamãe gande", termo cunhado pelo meu irmão André. Os demais netos a chamavam de "vó", ou "voroca", cada um procurando a forma mais carinhosa de tratar a velha senhora.

Séria, austera, solidária, amiga, companheira, um tanto irascível e turrona, dona de uma voz firme e poderosa, também sabia ser engraçada e bem humorada, e distribuir carinho, do seu modo.

Leitora diária de jornais e lúcida até o último dia, viveu bem informada e consciente de tudo à sua volta. Era capaz de sustentar qualquer conversa, sobre qualquer tema, e sempre tinha uma palavra de sabedoria para dar o seu interlocutor. Adorava conversar. Até hoje, de vez em quando me vem ao ouvido aquele jeito especial de falar, a maneira única com que pronunciava o meu nome.

D. Maria de Lourdes, d. Lourdes, d. Ninita, ou nenén, como meu avô, carinhosamente a chamava, tinha todos esses apelidos, mas, era uma pessoa ímpar, que cuidou de mim com todo desvelo de avó, nas doenças de criança, satisfazendo pequenos caprichos, como me presentear com revistas e gibis que fizeram a minha coleção chegar à casa das centenas, de me dar as minhas guloseimas preferidas e sempre tendo um gesto de preocupação comigo, assim como sempre foi, tenho certeza, com os meus irmãos.

Ninita dedicou ao marido sua vida e um amor, fidelidade, companheirismo, compreensão e carinho que jamais vi igual. Ela levou ao pé da letra, e com máxima seriedade, as promessas que fez para ele no altar.

Uma das cenas mais tocantes que presenciei sobre esta terra, que me emocionou profundamente, aconteceu um dia quando fui à casa dela, e os encontrei sentados à beira da cama, com meu avô já bastante consumido pelas muitas enfermidades que teve, a namorar, sentados um ao lado do outro, de mãos dadas, trocando beijos, suaves, amorosos, fraternos, e olhares, do mais puro e sincero sentimento. Eles não perceberam a minha presença e logo me retirei pois não queria interromper aquele momento sublime, que ficou marcado para sempre no meu coração. Aquela afinidade e afeto foram únicas e acho que hoje as pessoas já não são capazes de sentir daquela forma.

Minha avó viveu longos 97 anos, 4 meses e um dia. Quinze dias antes de sua morte, juntamente com alguns de meus filhos, eu lhe fiz uma visita, e tendo perguntado o que me diria sobre esta comprida jornada, ela, meio sem titubear, resumiu em 3 palavras: - passou muito rápido, Paulo Estêvão (que era o modo como me tratava).

Penso que ali ficou uma das maiores lições, entre as muitas que me deu. A vida passa muito rápido, e é para ser vivida com intensidade, alegria, amor ao próximo, dedicação, interesse, persistência, e um sorriso no rosto. É preciso sorrir, apesar dos desafios, das dificuldades, das incompreensões, da insegurança, da injustiça e das mazelas que assistimos no dia a dia. Os últimos anos da minha avó não foram muito felizes. Ela se sentia solitária e, de certa forma, incompreendida. Mas, até nesta hora mostrou força, dignidade e estoicismo. Deixou o mundo num sopro. Dormiu bem, acordou angustiada e se foi em 15 minutos.

Sinto saudades da minha avó. O mundo ficou mais triste no dia que ela partiu. Como ensinou, a vida continua passando rápido demais. Eu tento frear, mas, não tem jeito. Então, o negócio é continuar, resistir e tentar não desistir. O destino final está nos esperando, mas, é sempre bom lutar. Que seja um bom combate. E será inspirado nos exemplos que minha avó deixou que eu vou pra rua, pelo Brasil. Já dizia o poeta: quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

sexta-feira, 13 de março de 2015

O deboche é perigoso

Classe política não vê a raiva que está nas ruas

por Senador Cristovam Buarque (PDT-DF)

Nas últimas semanas, as autoridades brasileiras debocharam além dos limites. Cada dia a população tem nova surpresa.

O presidente da Câmara oferece aos deputados o direito de custearem viagens de suas esposas com recursos públicos e apresenta o projeto para um novo edifício ao custo de R$ 1 bilhão; um juiz é fotografado dirigindo o carro de luxo de um réu; uma escola de samba ganha o título graças a financiamento de um ditador estrangeiro; a presidente da República coloca a culpa da degradação da Petrobras no antecessor que deixou o governo há 12 anos; outro ex-presidente ameaça colocar um exército na rua; o ministro da Justiça recebe advogados de réus do maior caso de corrupção da história; o ministro da Fazenda adota medidas totalmente opostas às promessas de campanha da candidata; o governo adota o slogan “Pátria educadora” mas corta parte importante do orçamento para a educação; as tarifas de eletricidade reduzidas no período eleitoral são substancialmente elevadas logo depois da eleição, o mesmo acontecendo com os preços dos combustíveis.

Como se esses deboches ativos não bastassem, a classe política se comporta com um generalizado deboche passivo: não reconhece a dimensão da crise, não debate suas causas nem aponta caminhos para reorientar o rumo do Brasil.

A sensação é de que a política está doente: não ouve, não vê, nem raciocina.

Não ouve as vozes do futuro chamando o Brasil para um tempo radicalmente diferente, em que a economia deverá ser baseada no conhecimento, produzindo bens de alta tecnologia; em que a principal infraestrutura deverá ser educação, ciência e tecnologia. Não ouve as vozes do exterior que mostram que não há futuro isolado e que precisamos agir para ingressar no mundo da competitividade internacional, na convivência econômica e cultural com o mundo global. E, pior, não ouve o clamor das ruas que indicam a necessidade de romper com os vícios do presente e reorientar o rumo para um futuro com economia dinâmica e integrada, e uma sociedade harmônica e sustentável.

A política tampouco vê as dívidas que os políticos têm com o país: com os pobres sem chance, com as crianças sem futuro e os jovens sem emprego; com a natureza depredada; a dívida decorrente da corrupção generalizada. Ao não reconhecer suas dívidas, a classe política não vê a raiva que está nas ruas.

Tudo isso leva a um comportamento esquizofrênico, pelo qual, de tanto vender ilusões, o governo e seus partidos passam a acreditar nelas. E os demais políticos se acostumam a elas.

Talvez esta seja a explicação para o deboche: não vemos, não ouvimos, nem pensamos. Até que o fim da paciência do povo nos desperte. Mas o custo poderá ser muito alto para a democracia, para a eficiência econômica, para a harmonia social e a sustentabilidade ecológica. Salvo se o despertar vier antes, com a descoberta de que o deboche é muito perigoso, como percebeu o presidente da Câmara, forçado a voltar atrás em sua decisão inicial.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Carta aberta a Juca Kfouri

Por João Luiz Mauad, publicado no Instituto Liberal

Prezado senhor,

O que me traz é um artigo de sua lavra, a mim enviado por um amigo petista que, coitado, tem-se agarrado a tudo que possa amenizar um pouco o imenso constrangimento por que tem passado depois de ajudar a eleger a sua “presidenta” para mais um mandato de 4 anos.

Não tenho qualquer pretensão de convencer este meu amigo do seu (dele) mau julgamento político, pois o infeliz se encontra absolutamente contaminado pelo que os americanos chamam de “partidarismo”. Ele torce e defende o PT como quem torce e defende um clube de futebol, completamente cego a argumentos ou fatos que possam “contaminar” a sua (dele) paixão.

Tampouco pretendo convencê-lo de nada, Sr. Kfouri. Minha intenção é tentar demonstrar aos demais que nos lêem o quanto seus argumentos e diatribes estão equivocados, bem como defender-me de algumas acusações que o senhor faz aos brasileiros em geral, e às elites, em particular. Para tanto, separei alguns trechos do seu artigo (em vermelho) para comentar:

“Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado. Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.”

Fale por si, seu Juca. Não generalize, por favor. Não sei da sua vida, mas esse “nós, brasileiros” me é ofensivo. Não sou nenhum santo que jamais avançou um sinal ou nunca andou em velocidade maior que a permitida, mas não sonego impostos, não compro DVDs piratas, não cuspo no chão e não votei nessa turma que o senhor elenca, assim como nunca votei no Lula ou na Dilma.

“O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção. Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade. Elite branca que não se assume como tal, embora seja elite e branca. Como eu sou”.

Em primeiro lugar, considero-me um membro da elite, sim, com muita honra. Tive a sorte de poder estudar e formar-me em nível superior. Leio mais de cinco livros por ano e minha renda é superior à média nacional. Quanto a esse negócio de “elite branca”, trata-se de uma enorme bobagem, para não dizer de um clichê preconceituoso e boboca. Ninguém deveria ser acusado ou cobrado por algo sobre o qual não tem qualquer ingerência. Eu jamais o acusaria de ser feio, bonito, alto, baixo, branco preto, etc. São qualidades (ou defeitos, dependendo do ponto de vista), sobre os quais não podemos fazer nada. Simplesmente, nascemos assim. A propósito, tenho bons amigos negros que pensam muito parecido comigo.

O senhor diz que o panelaço não foi contra a corrupção. Eu lhe digo que foi também contra a corrupção, mas foi principalmente uma reação das pessoas com algum senso moral ao imenso estelionato eleitoral de que o país foi vítima. Durante meses escutamos a sua candidata repetir que, se o seu (dela) adversário vencesse, teríamos “tarifaço”, aumento de juros, tunga nos direitos trabalhistas, aumento de impostos, aumento dos combustíveis, etc. E o que tivemos depois que ela foi reeleita? Tudo aquilo e mais um pouco. Ou seja: ela pode mentir e enganar as pessoas a vontade, e nós devemos permanecer quietos. Certo?

Mas o panelaço foi também uma reação plenamente justificável aos atentados contra a nossa inteligência cometidos pela sua “presidenta” e seus marqueteiros. Aquele negócio de dizer que a culpa pela corrupção generalizada do governo era do FHC, ou que a indizível roubalheira na Petrobrás só se tornou pública porque ela mandou apurar, é muita cara-de-pau. Se o senhor gosta de ser chamado de idiota, é problema seu. Mas não queira que todos tenhamos o mesmo (mau) gosto.

“Como Luís Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB e ex-ministro de FHC, que disse: “Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres.”… Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo. É ódio. Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. Continuou defendendo os pobres contra os ricos. O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres.”

Vou confessar-lhe uma coisa: estou, sim, com ódio do PT. Mas não por causa de um suposto espírito golpista contra os pobres. Meu ódio é porque, ao contrário do que o senhor alega, o seu partido jogou fora doze anos de governo sem que tivesse feito quaisquer das reformas estruturais de que o país tanto precisa, e cujos principais beneficiados seriam justamente os mais pobres que o senhor se jacta de defender.

Seu partido está há doze anos no poder e nada fez para melhorar a educação pública básica. Ao contrário, o fosso entre a educação de ricos e pobres só fez crescer. Seu partido nada fez para melhorar a produtividade da nossa mão-de-obra, única forma comprovada de fazer crescer a renda real dos trabalhadores. Nada fez para reduzir a enorme (e regressiva) carga tributária indireta, que afeta muito mais os pobres que os ricos. Nada fez para melhorar o ambiente de negócios no país, para permitir que pequenos e médios empreendedores pudessem levar à frente os seus empreendimentos.

A única coisa que vocês fizeram pelos pobres foi aumentar o alcance do Bolsa Família, um programa que serve muito mais para torná-los dependentes do seu partido do que propriamente para tirá-los da pobreza. Chega a ser um acinte que vocês comemorem como algo honroso o fato de termos quase metade da nossa população direta ou indiretamente dependente desse programa. É pavoroso que vocês comemorem o aumento do número de brasileiros recebendo a Bolsa, e não a sua redução.

Ao mesmo tempo, o PT torrou rios de dinheiro com o “andar de cima” (para usar uma expressão de que a trupe petista tanto gosta). Compare o volume dos empréstimos subsidiados do BNDES às grandes empresas com o volume de repasses do “Bolsa Família” durante todos esses anos e depois me diga quem são os principais beneficiários das políticas públicas petistas (em 2013, por exemplo, o governo desembolsou $13,8 bilhões para o Bolsa Família e $190 bilhões em empréstimos subsidiados para as empresas). Sem falar dos bilhões e bilhões de dólares jogados no ralo por contratos superfaturados com mega empreiteiras e esquemas de corrupção como “nunca antes nesse país”.

“Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.”

Não, meu caro. A luta de classes voltou pelo discurso raivoso do ex-presidente Lula. São vocês que, quando acuados, só enxergam a saída do “nós contra eles”, do eterno Fla x Flu. Até porque única e verdadeira luta de classes que existe atualmente é entre aqueles que pagam impostos e aqueles que os consomem, sem prestar minimamente os serviços que deveriam. A propósito, como andam a segurança pública, a saúde e a educação? Pelo visto, o senhor deve morar em outro país…

“Nada diferente do que pensa o empresário também tucano Ricardo Semler, que ri quando lhe dizem que os escândalos do mensalão e da Petrobras demonstram que jamais se roubou tanto no país. “Santa hipocrisia”, disse ele. “Já se roubou muito mais, apenas não era publicado, não ia parar nas redes sociais”.

O senhor, por acaso assistiu ao depoimento do réu confesso, Pedro Barusco, ontem na CPI da Câmara? Provavelmente, não. Mas foi estarrecedor. O PT certamente não inventou a corrupção. O que este partido fez, como nenhum outro, foi torná-la uma política de Estado, uma instituição permanente, operada de cima para baixo, com o intuito de operar a perpetuação no poder. A corrupção deixou de ser um assunto pessoal para tornar-se institucional.

“Sejamos francos: tão legítimo como protestar contra o governo é a falta de senso do ridículo de quem bate panelas de barriga cheia”.

Quer dizer então que elites, ou melhor, gente que não seja pobre ou de esquerda, não pode protestar ou reivindicar qualquer coisa? Essas são prerrogativas exclusivas dos pobres? Não sei quantos anos o senhor tem, mas eu vivi numa época em que as elites foram para as ruas pedir anistia. Foram para as ruas pedir eleições diretas. Foram para as ruas pedir o impeachment do Collor (não por acaso aliado atual do PT). Naquela época as elites letradas faziam a sua parte, chamando a atenção do país em geral para as causas certas, né? Hoje, como nossas causas são diferentes das suas, devemos ficar em casa e assistir inermes a esse espetáculo de roubalheira e hipocrisia?

Não, senhor. Sou brasileiro como qualquer outro. Rico, pobre, branco ou preto. Pago tanto ou mais impostos do que o senhor e tenho todo direito de ir para a rua protestar contra esse descalabro em que se transformou o Brasil sob a sua “presidenta”. Pelo bem dos meus (e dos seus) filhos e netos, tenho obrigação de ir para a rua bater panelas, tocar buzinas, enfim, demonstrar a minha contrariedade pela transformação do Estado brasileiro num antro de ladrões, demagogos e hipócritas.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Abrindo a caixa preta do BNDES



Por Armínio Fraga, João Manoel P. de Mello e Vinicius Carrasco

Nos últimos anos, o governo abriu como nunca as torneiras do Tesouro, aportando vultosos recursos ao BNDES, através do qual concedeu empréstimos subsidiados. Qual o resultado dessa política? A resposta curta é: não sabemos, pois não estão disponíveis dados necessários para uma análise rigorosa dos vários programas e empréstimos individuais do banco.

Políticas públicas são financiadas por impostos e é obrigação do governo prestar contas de seu uso aos cidadãos que os pagam. Não menos importante, os recursos são escassos e as necessidades da população virtualmente ilimitadas; os recursos escassos deveriam, então, ser aplicados às políticas que gerem maior benefício à sociedade. Por essas razões, toda e qualquer política pública deveria ser criteriosamente avaliada, com cômputos e apresentação à sociedade de seus custos e benefícios.

Do lado dos custos, a discussão se dá de maneira um tanto quanto confusa. A atividade principal de um banco é conceder empréstimos. O risco desses empréstimos (e, portanto, seu custo econômico) é incorrido por quem financia o banco. O custo de financiamento de um banco está relacionado ao risco de seu portfólio de ativos, ou seja: os recursos que financiam a atividade do banco devem ser remunerados de acordo com o risco que impõe aos financiadores.
Políticas públicas são financiadas por impostos e é obrigação do governo prestar contas de seu uso aos cidadãos que os pagam

Um exemplo: parte substancial do financiamento do BNDES vem de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), para os quais não há qualquer compromisso de repagamento de seu principal pelo banco. Portanto, o FAT é, de facto, acionista do BNDES e deveria ser remunerado de acordo com os riscos com os quais um acionista se depara. A despeito disso, recebe como remuneração a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). De forma análoga, o governo é acionista do BNDES e deveria ser remunerado como tal. Em particular, ao contrário do que o debate público sugere, o subsídio implícito em qualquer empréstimo feito pelo BNDES é a diferença entre a taxa do empréstimo e o custo econômico de financiamento do banco: fazer com que a TJLP se iguale à Selic reduziria, mas não eliminaria o subsídio.

Além do custo de financiamento do banco, há um outro custo que deve ser levado em consideração. O FAT, por exemplo, é financiado por impostos pagos pelas empresas e distorcem suas decisões do quanto investir em capital e empregar trabalhadores e, portanto, impõe um custo à sociedade que deve ser levado em consideração para se avaliar o custo do BNDES.

Se do lado dos custos o problema nos parece ser conceitual, do lado dos benefícios o problema é que não há informação suficiente para que a sociedade os avalie. A principal justificativa para a atuação de um banco de desenvolvimento é a existência de projetos cujos benefícios sociais sejam maiores que os benefícios privados. Numa situação dessas, os agentes privados não conseguirão se apropriar de todos os benefícios gerados. Assim, ausentes a atuação do banco e alguma forma de subsídio, esses projetos não seriam levados a cabo, com consequências negativas para a sociedade. Isso ocorre, por exemplo, em projetos que geram o que os economistas chamam de externalidades positivas, isto é, quando um projeto gera ganhos sociais para além daqueles que se beneficiam diretamente dele.

A sociedade tem o direito de julgar se os benefícios da concessão de empréstimos subsidiados compensam os custos. Afinal, não faltam outros problemas que podem ser mitigados com esses recursos, como as filas do SUS ou a falta de vagas em creche, para citar apenas duas de uma longa lista de carências. Para fazer a avaliação, é indispensável que a sociedade tenha acesso às informações. Por exemplo, sendo o empréstimo subsidiado, quais são a taxa efetiva, o prazo e o indexador? Como isso se compara com os juros o governo paga? Para empresas abertas, como o financiamento do BNDES se compara à taxa média de financiamento da empresa no mercado? O indexador é diferente? E como se compara às debêntures que a empresa possa ter? Na ausência dessa informação — o que ocorreria para empresas fechadas — como os termos se comparam com termos que empresas abertas comparáveis enfrentam?

Até hoje os dados sobre cada empréstimo do BNDES não estão disponíveis, sob a justificativa de que seria uma violação do sigilo bancário. Uma possibilidade seria fazer com que cada empresa que receba empréstimos a taxas subsidiadas (que correspondem a um custo social) abra mão de confidencialidade de algumas informações relacionadas ao empréstimo, como contrapartida e sob condições a serem determinadas. É possível que, em circunstâncias muito especiais, seja socialmente desejável fomentar algumas empresas ou setores através de empréstimos subsidiados. Mas esse é tema para outro artigo. Nosso ponto aqui é mais básico: precisamos, antes de mais nada, mensurar corretamente o retorno social dos empréstimos subsidiados do BNDES. É hora de abrir a caixa preta.

sábado, 7 de março de 2015

Os petistas devem um pedido de desculpas à Veja, por Rodrigo Constantino

Se um jornalista obtém, após a devida apuração, uma informação relevante, deve ele simplesmente ignorá-la por estar o país em época eleitoral? Claro que não! Se assim o fizesse não seria bom jornalista. E a decisão de não revelar a informação para não prejudicar determinado candidato, por óbvio, implica na escolha de prejudicar outro candidato, no caso seu oponente. Logo, guardar para si a importante descoberta também seria uma escolha política e contra os princípios do bom jornalismo.

Qualquer pessoa minimamente inteligente entende isso. Mas o calor eleitoral impede que a inteligência seja preservada muitas vezes. Especialmente por parte de esquerdistas, cuja inteligência, quando presente, não costuma combinar com a honestidade intelectual. Vale tudo para vencer, inclusive sacrificar a verdade. Assim tem sido o histórico da esquerda.

Fiz essa introdução para chegar no caso da polêmica capa da revista Veja nas vésperas das últimas eleições. Nela estava estampada uma foto de Lula e Dilma com os dizeres: “Eles sabiam de tudo”. Acima ficava claro que se tratava de uma acusação ou confissão feita pelo doleiro Alberto Youssef, em sua delação premiada a qual Veja tomou conhecimento. Se um doleiro envolvido no esquema, em processo de delação no qual precisa apresentar evidências, diz que a presidente da República sabia, como um veículo sério de imprensa poderia sonegar tal revelação bombástica dos seus leitores?

A informação era quente, foi devidamente apurada, mas outros veículos se sentiram intimidados e preferiram não dar o mesmo destaque. Repercutiram somente no dia seguinte a notícia, e basicamente porque não poderiam ignorar a reação de seguidores do PT: eles depredaram a sede da revista! E isso virou uma notícia que não poderia mais ser ignorada, levando os jornais televisivos a comentar o que causara tal ato de vandalismo.

Nas redes sociais, uma legião de bajuladores do PT aplaudiu o ato quase terrorista contra a Abril, ou no mínimo fez um conivente silêncio. Era a esquerda sendo a esquerda, adotando a máxima de que os fins “nobres” justificam quaisquer meios, usando um padrão seletivo de julgamento moral. É o que fazem desde sempre, como nas invasões do MST, por exemplo, que podem até destruir pesquisas científicas importantes que continuam blindadas de críticas, pois vêm de um “movimento social” ligado ao PT.

Pois bem: a acusação foi geral do lado esquerdo, de que a Veja era “golpista”. Atacaram o mensageiro, e ignoraram a mensagem. Sobre Youssef, o doleiro do esquema de corrupção na Petrobras, afirmar que Lula e Dilma sabiam de tudo, nem uma palavra! Mas a Veja se tornava o alvo, como sempre. Revista tucana, partidária, golpista, mentirosa. Só há um porém: ela estava cumprindo seu papel jornalístico, que a torna a mais respeitada e vendida revista do Brasil, há décadas (inclusive quando o governo era dos tucanos, algo que os petistas hoje esquecem).

Veja divulgou uma nota agora que as transcrições da denúncia de Youssef vieram à público, comprovando que ela estava certa. Seguem alguns trechos:

A mais extraordinária característica dos fatos é que eles são teimosos. Os fatos não desaparecem facilmente. A realidade é feita de fatos e, à semelhança da verdade, cedo ou tarde ela se impõe.

[...]

Internamente, na apresentação da reportagem de capa, VEJA escreveu: “Cedo ou tarde os depoimentos de Youssef virão a público em seu trajeto na Justiça rumo ao Supremo Tribunal Federal (STF)”. Nesta sexta, os depoimentos efetivamente vieram a público e quando se examina seu conteúdo no que diz respeito às afirmações de VEJA na capa Lula e Dilma Sabiam a constatação insofismável é a de que VEJA apurou e publicou um fato real: Yousseff disse à Justiça, no âmbito de sua delação premiada, que o Palácio do Planalto sabia das tenebrosas transações que ocorriam na Petrobras.

VEJA cumpriu com seu dever jornalístico ao trazer esse fato ao conhecimento de seus leitores. Portanto, quem se insurgiu contra a revista naquele episódio, se insurgiu, realmente, contra os fatos. Atacou o mensageiro, quando o que feria era a mensagem.

Agora, com a quebra de sigilo sobre os depoimentos da Lava Jato, veio a confirmação de que VEJA estava certa e seus contestadores errados. A eles, quem sabe, seja útil a leitura de João 8:23: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.



De fato, a verdade é libertadora. Mas certas pessoas fogem dela como o diabo foge da cruz. Sofrem de dissonância cognitiva, e a verdade dói demais da conta, torna-se insuportável, pois vai contra sua ideologia, suas crenças enraizadas e obtidas não por reflexões isentas, mas por paixão cega. Os escravos da mentira não toleram a verdade, pois ela poderia demolir todo o seu castelo de areia, montado sobre pilares frágeis, de papelão.

Falo daqueles que, apesar de tudo que já sabemos, repetem por aí com ar de “intelectual” que o PT se preocupa com os mais pobres, e que as “elites” não suportam isso, que a Veja faz parte dessa “elite golpista”. Alienação à enésima potência, criando uma casca impermeável aos fatos. Veja precisa ser odiada por essa gente, pois Veja trabalha com os fatos, e esses negam seus slogans. Diante de um fato incômodo, eles preferem repetir, feito autômatos: “tinha que ser na Veja!”


Pois é: tinha mesmo que ser na Veja, uma revista corajosa que não teme expor fatos incômodos para o governo poderoso. É o que diferencia o bom jornalismo da adesão chapa-branca dos vendidos ou covardes. É o que me enche de orgulho de fazer parte desse time, mantendo meu blog na Veja.com. Algumas pessoas valorizam a verdade; outras, necessitam da mentira. Para estes, há os blogs financiados pelo governo, pois encarar os fatos seria tarefa insuportável demais para essas pobres almas pusilânimes…

segunda-feira, 2 de março de 2015

A miséria da política

por Fernando Henrique Cardoso
Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e do seu partido?

Otimista por temperamento com os necessários freios que o realismo impõe raramente me deixo abater pelo desalento. Confesso que hoje, no entanto, quase desanimei: que dizer, que recado dar diante (valham-me os clássicos) de tanto horror perante os céus?

Na procura de alento, pensei em escrever sobre situações de outros países. Passei o carnaval em Cuba, país que visitava pela terceira vez: a primeira, na década de 1980, quando era senador. Fui jurado em um prêmio Casa de las Américas.

Voltei à Ilha como presidente da República. Vi menos do povo e dos costumes do que na vez anterior: o circuito oficial é bom para conhecer outras realidades, não as da sociedade. Agora visitei Cuba como cidadão comum, sem seguranças, nem salamaleques oficiais. Fui para descansar e para admirar Havana, antes que o novo momento econômico de relações com os Estado Unidos a modifique muito.

Não fui, portanto, para avaliar a situação política (sequer possível em sete dias) nem para me espantar com o já sabido, de bom e de mau, que lá existe. Não caberia, portanto, regressar e fazer críticas ao que não olhei com maior profundidade.

Os únicos contatos mais formais que tive foram com Roberto Retamar (poeta e diretor da referida Casa de las Américas), com o jornalista Ciro Bianchi e com o conhecido romancista Leonardo Padura.

Seu livro “El Hombre que amaba los perros”, sobre a perseguição a Trotski em seu exílio da União Soviética, é uma admirável novela histórica. Rigorosa nos detalhes, aguda nas críticas, pode ser lida como um livro policial, especialidade do autor, que, no caso, reconstitui as desventuras do líder revolucionário e o monstruoso assassinato feito a mando de Stálin.

Jantei com os três cubanos e suas companheiras. Por que ressalto o fato, de resto trivial? Porque, embora ocupando posições distintas no espectro político da Ilha, mantiveram uma conversa cordial sobre os temas políticos e sociais que iam surgindo.

A diversidade de posições políticas não tornava o diálogo impossível. Eles próprios não se classificavam, suponho, em termos de “nós” e “eles”, os bons e os maus.

Por outra parte, ainda que o cotidiano dos cubanos seja de restrições econômicas que limitam as possibilidades de bem-estar, em todos os populares com quem conversei, senti esperanças de que no futuro estariam melhores: o fim eventual do embargo, o fluxo de turistas, a liberdade maior de ir e vir, as remessas aumentadas de dinheiro dos cubanos da diáspora, tudo isso criou um horizonte mais desanuviado.

É certo que nem em todos os contatos mais recentes que tive com pessoas de nossa região senti o mesmo ânimo. Antes de viajar, recebi a ligação telefônica da mãe de Leopoldo Lopes, oposicionista venezuelano que cumpriu um ano de cadeia no dia 18 de fevereiro.

Ponderada e firme, a senhora me pediu que os brasileiros façamos algo para evitar a continuidade do arbítrio. Ainda mantém esperanças de que, ademais dos protestos no Congresso e na mídia, alguém do governo entenda nosso papel histórico e grite pela liberdade e pela democracia.

Esta semana foi a vez de Enrique Capriles me telefonar para pedir solidariedade diante de novos atos de arbítrio e truculência em seu país: o prefeito Antonio Ledezma, eleito ao governo do Distrito Metropolitano de Caracas pelo voto popular, havia sido preso dias antes em pleno exercício de suas funções.

Não bastasse, em seguida houve a invasão de vários diretórios de um partido oposicionista. Note-se, como me disse Capriles, que Ledezma não é um político exaltado, que faz propostas tresloucadas: ele, como muitos, deseja apenas manter viva a chama democrática e mudar pela pressão popular, não pelas armas, o nefasto governo de Nicolás Maduro. Esperamos todos que o desrespeito aos direitos humanos provoque reações de repúdio ao que acontece na Venezuela.

Até mesmo os colombianos, depois de meio século de luta armada, vão construindo veredas para a pacificação. As Farc e o governo vêm há meses, lenta, penosa mas esperançadamente abrindo frestas por onde possa passar um futuro melhor.

Amanhã, segunda-feira, 2 de março, o presidente Santos e outras personalidades, entre as quais Felipe González, estarão reunidos em Madri num encontro promovido por “El País” ( ao qual não comparecerei por motivos de força maior) para reafirmar a fé na paz colombiana.

Enquanto isso, nós que estamos longe de sofrer as restrições econômicas que maltratam o povo cubano ou os arbítrios de poder que machucam os venezuelanos, eles também submetidos à escassez de muitos produtos e serviços, nos afogamos em copo d’água.

Por que isso, diante de uma situação infinitamente menos complexa? Por que Lula, em lugar de se erguer ao patamar que a história requer, insiste em esbravejar, como fez ao final de fevereiro, dizendo que colocará nas ruas as hostes do MST (pior, ele falou nos “exércitos”...) para defender o que ninguém ataca, a democracia e — incrível — para salvar a Petrobras de uma privatização que tucano algum deseja?

Por que a presidente Dilma deu-se ao ridículo de fazer declarações atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando a Petrobras (espero que passageiramente) é o PT que, no afã de manter o poder, criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria?

Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas oportunidades históricas?

Confesso que tenho dúvidas se o sentimento nacional, o interesse popular, serão suficientes para dar maior têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias potencialmente dramáticas das quais nos aproximamos. Num momento que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política.

domingo, 1 de março de 2015

Crise do fim do mundo

Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se sabe para onde.

por Eliane Catanhêde

O 15 de março vem aí, com péssimas condições de tempo e temperatura, o governo fazendo barbeiragens e a oposição instigando as manifestações, mas desautorizando o "Fora, Dilma". E ironizando o "Foi o FHC".

Na economia, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acerta ao entregar um superávit de R$ 21 bilhões em janeiro, mas erra feio ao criticar e chamar de "brincadeira" as desonerações feitas pela chefe Dilma Rousseff no primeiro mandato. Não se cutuca a onça com vara curta.

E... o aumento de até 150% nos impostos da indústria vem numa hora de pânico do setor produtivo e não é nada promissor para crescimento, inflação e empregos, que já começam a tremelicar.

Na política, as ameaças ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Entraram na casa dele e isso virou justificativa para seu encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um mês depois, justamente às vésperas do anúncio da lista de políticos do PT e do PMDB na Lava Jato. Pior: em 48 horas, o procurador desiste da denúncia de políticos e segue pelo desvio de abrir inquérito. Leia-se: jogar tudo para as calendas.

Janot pode estar enveredando pelo pior dos caminhos: aquele que estanca um basta na corrupção sistêmica, dá na impunidade dos responsáveis pela maior roubalheira descoberta na República e, atenção, pode respingar na sua própria biografia.

Já o ministro da Justiça se encontra com o advogado da UTC, por acaso, ali na porta ao lado do seu gabinete, diz "Oi!, como está você?" e vira as costas. Também recebe a turma da Odebrecht e registra em ata que vai ver direitinho como foi o pedido de dados na Suíça, o que pode resultar em anulação de provas contra as empreiteiras. Depois se reúne com o procurador à noite, numa semana decisiva, para discutir um arrombamento desses que ocorrem às centenas, ou milhares, por dia.

Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se sabe para onde.

Já eram esperadas as delações premiadas de dois executivos da Camargo Corrêa, o presidente, Dalton Avancini, e o vice, Eduardo Leite (em choque com a própria companhia), que devem reforçar a tese de cartel contra a de esquema político para eternizar o PT no poder.

É o que o governo quer, mas não o que interessa à Odebrecht, onde habitam os maiores amigos de Lula e Dilma no setor. A empresa é a única que não tem nenhum executivo na cadeia e ficou fora da lista que vai pagar multa de R$ 4,5 bilhões, porque seus meandros de financiamento de campanha são muito mais complexos, não se encaixam nas investigações. Mas, se prevalecer a confissão conjunta de "cartel", ela entra na dança.

É mais um choque de interesses, mas o foco continua sendo no grande personagem das investigações: Ricardo Pessoa, o homem bomba da UTC. Tudo depende agora do fator emocional. Digamos que é uma questão de tempo.

Tem-se, assim, que a economia está como está, os ajustes são amargos num momento já de tanta amargura, o PMDB acaba de ir à TV se descolando do governo, cresce a sensação de que o procurador-geral está nas mãos de Dilma e Cardozo e o desfecho da Lava Jato é incerto, depois de tantas revelações escabrosas.

Pois é... e o 15 de março vem aí. Fernando Henrique Cardoso reuniu seus generais na sexta e o recado é: manifestações, sim; incitar o impeachment, não. Lula também reuniu sua tropa e avisou: se necessário, põe nas ruas a "tropa do Stédile" (ou seja, MST e movimentos sociais).

O que talvez os dos dois lados não estejam entendendo é que, desta vez, não se trata de PT versus PSDB. O momento é grave, a situação é complexa e a dinâmica é a de junho de 2013. As manifestações não são de partidos, de governo ou de oposição. São principalmente contra Dilma, mas contra todos eles.

Tenho lido cada uma!

por Percival Puggina, para o Jornal Zero Hora

Numa ponta da meada do Petrolão, lideranças de um governo que afunda de nariz empinado falam como se a Petrobras fosse tesouro de quem o encontrou ao pé de promissor arco-íris. E o dia, durante 12 anos, nasceu feliz. Na outra ponta, até quem manteve as mãos distantes do óleo grosso quer transferir culpas. O sujeito cumprimentou cordialmente um jornalista da praça - "Como vai, fulano?", e este revidou: "E o efeagacê? E o efeagacê?". Calma, rapaz, um simples bom-dia basta.

Não lembro de período com tanta sandice no noticiário. Li que o Ministro da Justiça aferrolhou a porta e conversou com o advogado de uma empreiteira que entrou nervoso e saiu tranquilo. Li exaustiva lista relacionando, com ufania, quatro (!) petistas que teriam desentranhado sua contrariedade com a corrupção em curso. A virtude é assim, tão contagiante? Quatro gotinhas tornam potável a água mais impura? Li que na versão marota do "regime de partilha", na qual 3% dos contratos abasteciam os partidos da base (2% para o PT e 1% para o PMDB e o PP) tudo era feito "em nome da governabilidade". Bom, para o país, não? Li que um grupo de 50 "intelectuais" partiu para o ataque afirmando que: 1) a operação Lava Jato põe em risco nossa soberania e a democracia; 2) seus alvos são a Petrobras e o pré-sal; 3) as investigações estão "dizimando" empresas de alta tecnologia; 4) desenha-se um projeto golpista no país. Com intelectuais assim, quem precisa de tolos?

Ouvi Lula em ato para salvar a Petrobras. Falou como quem mata e vai discursar no velório. Disse que os achados da Lava Jato nas águas profundas do governo são tema de quem quer criminalizar a política. Ensinou História, afirmando que tais ações acabam em ditadura (certamente lembrou de seus amigos do Foro de São Paulo prendendo opositores). Ameaçou com o "exército do Stédile" (MST) quem atacasse o governo nas ruas. E ao final, surtou: "O que nós estamos vendo é a criminalização da ascensão social de uma parte do povo brasileiro". Mas o que é isso, Lula?

Li sobre a campanha por Eleições Limpas. E pergunto à CNBB, que mantém união estável com o PT há 35 anos: por que não começou a limpeza dentro de casa, fazendo com que suas Análises de Conjuntura não propagassem as mentiras desse partido sobre a situação nacional? Li no hino da Campanha da Fraternidade: "Os grandes oprimem, exploram o povo". Marxismo de boteco, em pentagrama. E um velho comunista me escreve: por culpa da direita, a Venezuela era um país rico de povo pobre onde o chavismo veio redimir os pobres. Agora, a Venezuela é um país pobre, de povo pobre. Mas a culpa, insiste ele, continua sendo da direita. Vai entender!