"De tanto ver triumphar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver prosperar a deshonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Ruy Barbosa

domingo, 16 de agosto de 2015

Metáfora perigosas, por Merval Pereira

Às vésperas das manifestações contra o governo Dilma programadas para amanhã em todo o Brasil, a ameaça do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Vagner Freitas de pegar em armas para defender a presidente e o ex-presidente Lula de um suposto golpe dá o tom de irresponsabilidade com que está sendo tratada a questão.

Nada mais próximo da Venezuela atual do que a imagem de um líder sindicalista, dentro do Palácio do Planalto e ao lado da presidente, a quem, chama de “presidenta”, falando em ficar armado nas trincheiras para supostamente defender a democracia.

Nada mais antidemocrático do que esse tipo de abordagem, que não foi contestada pela presidente. O máximo que Dilma conseguiu foi defender um diálogo com quem acabara de falar em armas, que só viraram retóricas mais tarde, depois que a repercussão do despautério mostrou à CUT que ela não pode assumir um papel belicoso quando trata de democracia.

Pelo twiter, o chefão da CUT mandou avisar que estava usando uma linguagem metafórica. O comandante do MST, João Pedro Stédile, já havia utilizado metáforas militares quando afirmou que colocaria se exército nas ruas para defender o governo.

O que não faltam hoje nas manifestações do governo e seus aliados são incoerências, pois não há mais como manter unidos pólos políticos tão heterogêneos quanto os que formam (formavam?) o bloco aliado governista. Vagner Freitas começou sua fala reclamando de “intolerância e preconceito”, afirmando que o que há é “preconceito de classe contra nós”, os sindicalistas que estavam ali reunidos no Palácio do Planalto num ato convocado pelo governo de apoio à presidente Dilma.

Ao mesmo tempo em que se disse defensor “da unidade nacional, da construção de um projeto nacional de desenvolvimento para todos e para todas”, o chefão da CUT engrenou uma segunda e subiu o tom, dizendo que defender o projeto de união nacional, implica, “nesse momento, ir para as ruas, entrincheirado, com arma na mão, se tentarem derrubar a presidenta Dilma Rousseff.” E ainda identificou o inimigo a ser batido, “a burguesia”.

O mesmo governo que chama os “movimentos sociais” para defendê-lo está se empenhando no Congresso para aprovar uma série de medidas que outrora seriam chamadas de “neoliberais” pelos petistas entrincheirados no Congresso, pintados para a guerra.

Hoje, o presidente do PT Rui Falcão se recusa a assinar um manifesto contra a política do ministro da Fazendo Joaquim Levy, negando apoio aos mesmos movimentos sociais que eles chamam em seu socorro contra a “burguesia” da qual a maioria dos petistas hoje fazem parte, especialmente o ex-presidente Lula, apanhado indiretamente num grampo telefônico combinando com um diretor da empreiteira Odebrecht – que dias depois foi preso na Operação Lava-Jato – como afinar o discurso para rebater as acusações sobre empréstimos concedidos pelo BNDES para obras da empreiteira no exterior.

Se não fosse perigosa a retórica desses movimentos periféricos ao poder sustentados pelas verbas do governo federal, seria ridícula essa linguagem de sindicalistas que, como está no voto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, querem transformar o país em um “sindicato de ladrões”.

O presidente da CUT, Vagner Freitas, foi o antecessor de João Vaccari na presidência do Bancoop, a cooperativa do triplex de Lula.

Cartilha do BNDES

A preocupação do governo com o esquema montado no BNDES é tamanha, como revelou o grampo da Polícia Federal, que o banco estatal distribuiu internamente um "manual" dando orientações aos técnicos do Banco de como proceder em eventuais questionamentos da CPI aberta pelo Congresso Nacional para investigar determinadas operações.

As orientações abrangem todos os temas sensíveis, em especial as empreiteiras já alvos da "Lava-Jato", as operações "sigilosas" de empréstimos realizados com os chamados "países bolivarianos" e outros como Cuba e Angola.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Para Tico Santa Cruz

Grande pensador contemporâneo, Tico Santa Cruz. Ontem você postou um texto sobre a crise, com maluquices tão absurdas que resolvi te enviar uma resposta, não só como economista, mas como cidadã brasileira consciente.

Você está em dúvida se existe realmente uma crise, já que apesar de estarmos passando um momento de retração da economia, tivemos 10 anos positivos, com pessoas tendo acesso à carros, imóveis e etc. Tiquinho, meu bem, a tia te explica: Primeiro que tínhamos uma farra de preços de commodities e nunca incentivamos a indústria de forma consistente, correndo o risco de essa farra acabar e a receita cair, não tendo outra fonte substancial para segurar o crescimento. Segundo que, tudo que as pessoas compraram nesses últimos anos foi às custas de redução de juros drástica e imatura, que incentivou o crédito demasiadamente, além de preços administrados controlados artificialmente, assim como redução de impostos para diversos bens de consumo. Os gastos públicos só aumentaram sem responsabilidade nenhuma. Meta de superávit? Inflação controlada? Responsabilidade fiscal? Pra que?? Com essa política populista, ganhamos uma belíssima conta para pagar no futuro. E esse futuro chegou.

Sua lógica me surpreende. Diz que houve demissões, em especial no setor automotivo, o mesmo que teve um boom nos últimos anos, que contratou muita gente para dar conta do alto índice de consumo que o povo brasileiro adotou. “Será que esses setores, que lucraram tanto, não podem manter seus funcionários neste momento de crise ou será que quebram? Pergunta de leigo, pois não sou economista”. Não precisa ser economista querido, precisa ter o mínimo de massa encefálica, coisa que lhe falta, aparentemente, tanto quanto uma boa música. Se a empresa não faz nada num momento de crise, é obvio que ela quebra! E se ela quebra, não tem emprego para ninguém! Entendeu? Mas você acha que o problema é o sistema capitalista opressor e seus lucros não é mesmo? Comovente.

A minha parte favorita é quando você diz que muitos economistas preveem aumento de juros, de taxas e que NADA efetivamente aconteceu. Aí eu levo minhas mãos à cabeça e fico imaginando que espécie de sinapses você faz com os neurônios que lhe sobraram. A taxa de juros básica está em quase em 14%; a inflação está cada vez maior (projetado para o final do ano é de mais de 9%, e a de junho foi a maior para o mês em 19 anos); houve aumento de impostos; os preços administrados foram corrigidos (energia, gasolina, etc.); o dólar está no maior patamar em 12 anos (que por acaso pressiona ainda mais a inflação) e o endividamento das famílias está quase em 50% com o incentivo do crédito nas épocas que você chama de boa fase econômica. Ah, não se esqueça que ainda houve corte das metas fiscais; o desemprego cresceu e deve crescer ainda mais; o PIB está em retração, estimando-se 1.70% de crescimento negativo em 2015 (dois anos seguidos de retração não acontece no Brasil desde os anos 30); corte de verbas na educação; demissões nos setores de indústria, infraestrutura, comércio e serviços; escândalos absurdos em grandes companhias do país como a Petrobras e Odebrecht; recuo na renda real do trabalhador; mudanças em direitos trabalhistas; corte de 40% no orçamento do PAC e uma enorme crise de credibilidade, que apesar de intangível (procure no dicionário), é responsável pela escassez de crédito e diminuição drástica de investimentos no país. Com a crise política, essa credibilidade fica ainda mais afetada.

Sua sensação é de que a crise é apenas um sentimento plantado por pessoas que queiram ver o país desestabilizado financeiramente e emocionalmente e que isso sim seria o responsável por nos levar à verdadeira crise, pois o medo desta é o que realmente faz que ela aconteça. Agora o problema é psicológico? Quanta criatividade para uma teoria da conspiração. Que gente é essa que está interessada numa grave crise? Quem quer ver o país perdendo valor, retraindo, perdendo cada vez mais credibilidade, empregos, poder de compra? Que setores são esses que você fala que ganham com crises e podem “voltar à cena??”. Que raio de pessoas são essas que ganham com o medo? E mais, como eles conseguem dominar todos os canais de notícias, inclusive internacionais? Que brilhante conclusão!!!

Te digo com absoluta certeza que a única coisa que acertou neste mar de asneiras foi dizer que poderia estar completamente errado em suas considerações. Não só está MUITO errado nesta avaliação econômica non sense, quanto em lógica e tudo que conheço por pensamento racional. Você próprio diz que é preciso reconhecer os problemas para poder saná-los, mas que estes ainda não aconteceram. Se a situação que temos hoje ainda não é uma crise preocupante para você e o que vivemos é apenas uma especulação, pode aposentar seu diploma de pseudo intelectual. Nem isso dá mais pra fazer.

Ser realista nesta joça de país virou ser pessimista, que virou ser antipatriótico, que virou ser coxinha, que virou “alguém tem interesse nessa tal de crise”. Se o pior cego é aquele que não quer ver, Tico, você precisa de um cão guia.

Um grande abraço (com tapinhas nas costas), da economista, brasileira e sem interesse algum no medo de outrem,

Renata Barreto.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Para Ana Stella, minha prima



Um mestre judeu um dia enfatizou que era importante não elogiar a pessoa que morreu, mas deixar que suas boas ações falassem por ela. Citando uma carta que seu sogro escrevera em 1920, após o falecimento de seu próprio pai, explicou que um verdadeiro líder é como um pastor que jamais abandona o seu rebanho, deixando atrás de si uma filosofia e um curso de ação definido. Dessa forma, explicou, “ele está ainda mais presente que durante a sua vida, pois sua alma está livre das restrições físicas do tempo e espaço.”


Antes que possamos responder a pergunta “O que é a morte?” devemos primeiro perguntar: “O que é a vida?” A medicina afirma que há vida enquanto o cérebro e o coração da pessoa estão em funcionamento. Porém, uma pessoa pode estar biologicamente viva mas não ter vida. Oscar Wilde costumava dizer que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. A verdadeira fonte da vida, a energia que permite ao corpo funcionar, é a alma. E a alma, como está conectada com Deus, o Doador da vida, é imortal. Embora aquilo que entendemos como vida possa cessar com a morte, a alma continua a viver, somente numa forma diferente. Então, viver seria apenas uma passagem, um fio condutor entre o nascimento e a morte? Acredito que não. Na minha busca, penso que ninguém definiu melhor a vida do que a poetisa e contista goiana, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina:


"Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."


Por todas as manifestações e sentimentos daqueles que lhe eram mais próximos, minha prima Ana Stella, com toda a sua luta, foi uma pessoa que distribuiu vida, amor e alegria por onde passou. Tenho certeza que neste outro plano pra onde foi, também será assim. E pra nós, que aqui continuamos, resta mirar no seu exemplo e agradecer por termos com ela convivido. Acredito que Deus sabe o que faz e a missão a ela confiada foi cumprida. Um beijo em todos. Descanse em paz.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

A derrocada, por Gustavo Franco

A publicação do balanço auditado da Petrobrás é fato histórico, sem ser novidade, pois foi uma confissão formal e irretratável

A publicação do balanço da Petrobras para 2014 abre um capítulo particularmente revelador de um desmoronamento amplo, espetacular e de dimensões históricas, mesmo que ainda incompleto. Diante dessa catástrofe, espera-se que nunca mais o país ouça sem um arrepio os conceitos que orientaram esse experimento de petropopulismo, heterodoxia fiscal e “capitalismo de quadrilhas” (na falta de melhor tradução para crony capitalism, um fenômeno já bem identificado em outros países).

É de se esperar que este terremoto vá bem além da candidata eleita, ou da economia, que já vinha mal, pois atacará de frente um conjunto de ideias, ou uma ordem que seria simplório designar apenas como petista, pois vai muito além dos patéticos personagens associados à tesouraria do PT, seus líderes encarcerados e amigos da empreitada. O país quer um novo paradigma em matéria de política, e de política econômica, não é outra coisa o que se ouve pelas ruas e pelos botecos.

Essa rocambolesca “ascensão e queda” não é assunto novo, e já havia recebido marcos definidores nas duas capas da “The Economist”: em novembro de 2009, o Cristo Redentor decolava, mas em setembro de 2013, voava destrambelhado como um pacote bêbado. Diante dos acontecimentos posteriores, a segunda capa, que alguns viram como insulto, hoje soa como piada de salão, quase uma gentileza. As más notícias dos últimos meses não conhecem precedente em nossa história, tanto pela torpeza quanto pelos valores.

A decadência desse império ocorreu de forma inacreditavelmente veloz, mesmo considerando os padrões do mundo hiperconectado em que vivemos, e decorre de pelo menos três pragas, a primeira, curiosamente, relacionada com uma excelente notícia, um presente da Natureza, a heroica descoberta de um tesouro petrolífero onde ninguém havia se atrevido a procurar.

A segunda foi a utilização da crise de 2008 como um pretexto para uma grande inflexão para pior na política fiscal, agora consagrada no que tem sido chamado de “escândalo das pedaladas”, e o mesmo para a política industrial, com seus campeões e favoritos.

A terceira, e mais hedionda, é a da corrupção, que potencializa e explica em boa medida a vilania exibida no desenvolvimento das duas primeiras linhas de conduta, pois sua presença parece “sistemática” a partir de 2004, segundo testemunha, viciando muitos processos decisórios.

Mais detalhe sobre cada uma dessas pragas: a primeira tem a ver com o modo como Lula e o PT definiram a estratégia do país diante da descoberta do pré-sal. Reveladoramente, o debate começou pelo fim, com a vinculação dos ganhos à educação, e com a distribuição de royalties para unidades federadas, criando um mecanismo de socialização dos rents para servir como espinha dorsal de um “petropopulismo” semelhante aos de Venezuela e Rússia. Nesse contexto, é claro que era preciso estatizar o mais possível esta riqueza, sem muita conta sobre os investimentos que a Petrobras teria que fazer, pois o cálculo político, este sim, muito preciso, era sobre como se usar o tesouro para cooptar os entes federados. É fortíssimo, no Brasil, esse DNA rentista, propenso ao extrativismo, e avesso ao suor, ao individualismo e à produtividade. Que melhor redenção, ou que melhor pretexto para abandonar agendas reformistas e modernizadoras que descobrir petróleo?

Era a praga da displicência, versão caribenha do que se conhece como “Doença Holandesa”.

A segunda maldição teve que ver com a crise de 2008 e com a sensação de que o capitalismo ocidental estava acabado, que a índole perversa dos mercados jamais poderia levar ao bem comum senão debaixo de pesada regulação e que John Maynard Keynes, como Dom Sebastião, retornava triunfal das brumas do oceano na versão idealizada em Campinas. Para alguns economistas locais, cujos relógios pararam em 1936, a ocasião era perfeita para recuperar as “políticas anticíclicas”, das quais não se ouvia há décadas. Disseminou-se, ademais, exaltação ao capitalismo de Estado, modelo chinês, descontaminado das liturgias ocidentais como democracia e transparência, e o conjunto definido pela Goldman Sachs como Brics começou a levar a sério suas escassas semelhanças. Era o apogeu da ilusão na existência de “vida extraterrestre” e na “ciência alternativa”: eis a “Nova Matriz Macroeconômica”, a praga da irresponsabilidade.

A terceira praga veio dos porões onde se definiam os aspectos operacionais do sonho petropopulista-heterodoxo: os investimentos necessários, o conteúdo nacional, os campeões, as desonerações e as pedaladas, parece pouco provável que esses assuntos tenham sido decididos por gente inocente em ambientes republicanos. As possibilidades de entrelaçamento entre interesses públicos e privados nessa “Nova Matriz” eram imensas, necessárias e inevitáveis, e assim nosso cordial capitalismo de laços naturalmente desceu vários andares na escala da moralidade.

O Brasil se torna um curioso caso de país ex-comunista sem nunca ter sido, e que, bastante tempo depois da Queda do Muro, procurava imitar os traços mais pervertidos de alguns países que foram socialistas por longo tempo.

Sete anos depois, nem o mais neoliberal dos profetas poderia imaginar que o sonho petista petropopulista ia se converter nessa gororoba que tem assolado o noticiário cotidiano e que ganhou do presidente da Petrobras definição numa única palavra: vergonha, disse ele, ao reconhecer mais de R$ 50 bilhões em baixas contábeis.

A publicação do balanço auditado da Petrobrás é fato histórico, sem ser novidade, pois foi uma confissão formal e irretratável. A companhia contabilizou suas “despesas” com corrupção em R$ 6 bilhões com a aplicação do percentual de 3%, informação proveniente das delações no âmbito da Operação Lava-Jato, sobre todos os contratos com as empresas citadas na investigação no período que vai de 2004 a 2012. O reconhecimento oficial da desonestidade, graças a um dispositivo da legislação americana, abre imensas possibilidades, e levanta múltiplas questões.

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Lambança leva Dilma a jogar última cartada

por Ricardo Kotscho

Agora vai ou racha, é tudo ou nada. De lambança em lambança, já no desespero, sem ter mais para onde correr, após ser rejeitada até por um Eliseu Padilha da vida, Dilma Rousseff entregou o comando político do governo ao seu vice, Michel Temer, presidente do PMDB.

Duas semanas atrás, foi o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, quem anunciou a demissão de Cid Gomes, então ministro da Educação. Terça-feira, a substituição de ministros desceu na hierarquia. Sabem quem anunciou que Padilha não aceitaria o convite de Dilma para deixar a aviação civil e assumir a articulação política? Foi um tal de Leonardo Picciani, jovem líder do PMDB na Câmara, um dos bate-paus da bancada particular e suprapartidária que Cunha elegeu em outubro.

Quer dizer, virou zona, é fim de feira de um governo que está desmilinguindo antes mesmo de completar os primeiros 100 dias. Acabou a liturgia do poder que José Sarney tanto prezava para pelo menos disfarçar sua falta de poder. Dilma, mais uma vez, fez tudo errado ao tentar dar um jeito no seu Ministério Frankstein para tirar a articulação política das mãos do seu chegado Pepe Vargas (quem?) e entregá-la ao PMDB.

Como é que uma presidente da República pode se dar ao vexame de receber a recusa de um subordinado para trocar de ministério, ainda mais sabendo que ele atendeu a ordens de Eduardo Cunha, que é quem realmente manda no PMDB e na agenda política nacional? E ainda por cima mantê-lo no posto, jogando Pepe Vargas para um outro ministério?

E agora? Ninguém sabe. Só por um milagre o melífluo Michel Temer conseguirá domar o PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, cada vez mais dispostos a botar fogo no navio desgovernado para cumprir as promessas feitas aos financiadores de suas campanhas.

Para ninguém alimentar ilusões sobre o PMDB, Eduardo Cunha já mandou avisar: com Michel Temer na articulação política, "não vai alterar absolutamente nada a independência da Casa". Ou seja, se depender dele, e é ele quem manda, o partido vai continuar no comando da oposição a Dilma.

Partido com o maior número de cadeiras no Congresso Nacional, o PMDB tem apenas 6 ministérios, com uma verba total de R$ 7 bilhões, enquanto o PT tem 14, movimentando orçamentos que chegam a R$ 50 bilhões.

É aí que está a razão do conflito entre o governo e os dois principais partidos da sua base, o resto é firula. O PMDB, que não é um partido só, mas uma federação de interesses, só quer mais cargos e verbas, no momento em que acabou a farra do dinheiro fácil para alimentar os apetites de todos. O PT, por sua vez, isolado e sem rumo, não apoia o ajuste fiscal que prevê o corte de gastos sociais para reequilibrar as contas públicas.

Com a economia entregue a Joaquim Levy, e a articulação política, a Michel Temer, Dilma repartiu o poder presidencial e, daqui para a frente, vai ficar administrando a massa falida, sem ter o apoio de nenhum setor da sociedade organizada e dos movimentos sociais que lhe deram a vitória em outubro, enquanto a inflação dispara e o desemprego se multiplica na esteira da Operação Lava Jato.

O fracasso das manifestações promovidas pela CUT na terça-feira, com 400 gatos pingados saindo às ruas em São Paulo, mostra que a outrora aguerrida militância do PT e o "exército do Stédile" já não têm mais forças nem disposição para correr em seu socorro. Com seus agora 38 ministros, Dilma está cada vez mais só na estrada e já não tem mais coelhos para tirar da cartola. Michel Temer pode ter sido o último.

Vida que segue.

segunda-feira, 30 de março de 2015

O grande culpado, editorial do Estadão

Não precisa ser muito inteligente para saber que esta lambança é culpa do Lula. Na verdade, a culpa maior é, em primeiro lugar, dos que o elegeram. Não fosse muitos dos que me lêem terem "vencido o medo", e sido "audaciosos" e "aventureiros", para não dizer outras coisas, e não teríamos gente tão despreparada, gananciosa e vigarista a decidir os destinos do Brasil. Houve os que pecaram por omissão e os que, deliberadamente, os colocaram fora do lixo, de onde não deviam ter saído. Meu dedo estará, eternamente, apontado para vocês, seus MERDAS!

A grave crise política e econômica na qual o País está mergulhado coloca Dilma Rousseff na berlinda. E não poderia ser diferente. Afinal, ela é a presidente da República e tem demonstrado uma inacreditável inépcia no exercício das funções de primeira mandatária. Mas uma análise conjuntural que amplie o foco de observação da cena política para além dos episódios do dia a dia e se projete sobre os 12 últimos anos expõe à luz o protagonista oculto, o ardiloso responsável maior pela tentativa de reinventar o Brasil - aventura que hoje custa caríssimo para cada um dos brasileiros: Luiz Inácio Lula da Silva.

Uma das conhecidas habilidades políticas de Lula é desaparecer de cena, procurar as sombras, fingir-se de morto para o grande público quando o perigo ronda. Exatamente como está fazendo no momento. Outra é só dizer o que sabe que as pessoas querem ouvir. Faz isso desde os tempos em que frequentava o palanque sindical da Vila Euclides, no ABC. Outra ainda é ser um mestre em salvar aparências, mantendo, além de uma linguagem convenientemente popular, a pose de "homem do povo" que mora num modesto apartamento em São Bernardo, quando passa a maior parte do tempo voando de primeira classe ou em jatos executivos e hospedando-se em hotéis cinco-estrelas ou em mansões de amigos milionários.

Ao longo de mais de 20 anos na oposição "a tudo o que está aí", Lula conduziu o PT na tentativa de impedir a aprovação, entre outras, de iniciativas de importância histórica como a Constituição de 1988, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o programa de desestatização da telefonia que permitiu que praticamente todos os brasileiros disponham hoje de um telefone celular. E, depois de perder três eleições presidenciais consecutivas, chegou à conclusão de que precisava abandonar as velhas bandeiras para conquistar o poder, chegando ao Palácio do Planalto em 2003 graças à profissão de fé liberal contida na oportunista Carta aos Brasileiros.

Na presidência, com Antonio Palocci na Fazenda, garantindo a observância dos fundamentos econômico-financeiros lançados no governo FHC e uma competente retórica populista, Lula navegou nas ondas da conjuntura internacional favorável e desenvolveu programas nas áreas econômica e social, cuja repercussão o levou à imodesta convicção de que se havia transformado em grande estadista.

Na segunda metade do primeiro mandato Lula enfrentou um primeiro grande desafio: o escândalo do mensalão, assalto aos cofres públicos urdido e chefiado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, com o objetivo de consolidar o "presidencialismo de coalizão", com a compra do apoio de parlamentares, e o levantamento de recursos para financiar as atividades do PT. De início, dizendo-se ignorante da trama armada sob suas barbas, Lula mostrou-se indignado e declarou que o PT deveria se desculpar com os brasileiros. Seu projeto de reeleição em 2006 ficou seriamente ameaçado. Mas, com a ajuda da popularidade em alta, oposição tíbia, indicadores econômicos positivos e projetos sociais relevantes e devidamente propagandeados, Lula foi reconduzido ao Planalto.

Com a bola cheia, passou a negar a existência do mensalão e continuou solidarizando-se com a companheirada envolvida no escândalo. Enquanto isso, já corria solto o esquema sucessor do mensalão, o do propinoduto da Petrobrás. Era apenas uma das facetas, talvez a mais sórdida, da privatização do Estado por meio da colocação do governo a serviço do projeto de poder do PT. E, mais uma vez, é impossível de acreditar que o presidente da República ignorasse o que se passava.

Diante da impossibilidade de um terceiro mandato, Lula tratou de selecionar a dedo seu sucessor. Dilma, a "gerentona", a "mãe do PAC", parecia a escolha perfeita. Mas já no primeiro ano de governo ela teve um assomo de autossuficiência ao promover uma "faxina" no Ministério que em boa parte herdara de seu mentor. Desde então Lula vem tendo dificuldades cada vez maiores para controlar a pupila. Foram quatro anos de dilapidação, não só da economia nacional, mas principalmente da moral e dos bons costumes na Administração Pública e na política. Essa razzia se deve à ação e omissão de Dilma. Mas quem armou o projeto de poder baseado na imoralidade e escalou a sucessora foi Lula. Cabe-lhe, portanto, prioritariamente, a culpa por "tudo o que está aí".

sábado, 21 de março de 2015

A crise é o PT

Rui Falcão, presidente do PT, pede punição às redes de TV, que, segundo ele, deram publicidade às manifestações do dia 15. Confunde notícia com publicidade

por Ruy Fabiano


Diz-se que uma foto vale mais que mil palavras – e um símbolo mais que mil fotos. Uma das primeiras providências que Lula tomou, ao chegar à Presidência da República, foi mandar recortar na grama do jardim do Palácio da Alvorada uma imensa estrela do PT e pintá-la de vermelho.

Estavam ali simbolizados os valores que pautariam os sucessivos governos petistas. Governo e partido – pior: Estado e partido – passaram a ser uma coisa só, numa linha de raciocínio segundo a qual o que é bom para o PT é bom para o Brasil.

Portanto, apenas o PT – e ninguém mais – sabe o que é bom para o Brasil. Dentro dessa lógica, cabem todo o Mensalão, o Petrolão e outras caixas pretas ainda não vasculhadas (BNDES, Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica etc.). O PT inventou a corrupção do bem – e a defende com ódio sincero.

Ainda que a estrela ajardinada tenha sido removida semanas depois, em face das críticas que provocou, seu simbolismo mostrou-se irremovível. “O Brasil é nosso”, dizem os petistas. Lula, no recente ato da ABI, bradou que “a Petrobras é nossa” – isto é, deles, que, com base nisso, a sugaram até a falência.

Num de seus inumeráveis arroubos de palanque, registrados no Youtube, Lula diz que só não descobriu o Brasil porque “não estava vivo naquela época”. Se estivesse, é o que se deduz, teria se antecipado a Pedro Álvares Cabral. Como não foi possível, joga ao lixo os 500 anos que o precederam e inaugura uma nova história.

Esse sentimento de posse em relação ao país e suas instituições explica a, digamos assim, dificuldade do PT em aceitar a alternância no poder. São capazes, nas palavras da candidata Dilma Roussef, de “fazer o diabo” para ganhar as eleições. E fizeram e ganharam, mas o “diabo” mandou a conta, que aí está.

A insistência com que o PT repete que venceu as eleições sugere que ele mesmo não está convencido disso. Venceu, mas como? Mediante compromissos que não está cumprindo e não terá como cumprir. Não só: venceu por estreita margem, que, numa pesquisa, indicaria empate técnico.

Não apenas os 51 milhões de eleitores de Aécio rejeitaram o PT. O que dizer dos 37 milhões que não votaram em nenhum dos dois? De que lado estão? Dilma não parece ter entendido que, na soma total, foi eleita por uma minoria – e mesmo esta acabou frustrada pelo descumprimento das promessas eleitorais.

Isso explica o fato de estar refém de vaias, manifestações e panelaços. Para se locomover, precisa acionar um vasto aparato de blindagem, que contrasta com o fato de estar no terceiro mês deste segundo mandato. O “Fora FHC”, acionado menos de um mês após a posse de Fernando Henrique - reeleito no primeiro turno, em 1999 -, não foi um grito das ruas.

Foi concebido por alguns aloprados do PT, sob o comando do então governador gaúcho Tarso Genro. Não prosperou exatamente porque faltou o grito das ruas. Agora, acontece o contrário: os tucanos se opõem ao “Fora Dilma”, enquanto as ruas bradam por ele. Que governador petista se disporia às vaias de sua base e do adversário – como aconteceu quinta-feira passada, em Goiânia, com o governador tucano Marcone Perillo – para defender a presidente em nome da tolerância política?

O sentimento petista de posse legítima e definitiva do país dificulta a negociação da crise. Documento interno vazado da Secretaria de Comunicação da Presidência da República recomenda que se invista nos blogs sujos – aqueles pagos com dinheiro público para difamar adversários – e nos “guerrilheiros” (sic) virtuais.

Rui Falcão, presidente do PT, pede punição às redes de TV, que, segundo ele, deram publicidade às manifestações do dia 15. Confunde notícia com publicidade: se a notícia é boa, é jornalismo; se é ruim, é publicidade golpista. Como não noticiar dois milhões de pessoas nas ruas do país contra o governo?

O fracasso das manifestações do partido no dia 13 indica que já não manda nas ruas. O “exército do Stédile” carece de mão de obra. Não bastam sanduíche de mortadela e cachê. Sem classe média – a mesma que levou o PT ao poder e hoje o abandona -, não há movimento nas ruas, não há revolução, não há nada.

Marx, Lênin, Stalin, Fidel Castro, Che Guevara eram todos de classe média. É onde se produz e se põe em cena a chamada massa crítica de qualquer sociedade, à direita ou à esquerda.

A “elite branca” – termo racista (e, portanto, criminoso) com que o PT busca satanizar a classe média e apostar na divisão do país – é responsável pela construção do PT, que não possui (nunca possuiu) um único negro em seu comando.

Lá estão os olhos azuis de Marta Suplicy, João Pedro Stédile, Guido Mantega, Gleisi Hoffmann, Renato Duque, entre outros. O mesmo partido que diz ter levado 20 milhões à classe média agora a abomina e discrimina racialmente.

Um partido nutrido nas elites acadêmicas de São Paulo tem tanta legitimidade para rejeitar a “elite branca” quanto para defender a Petrobras. E o resultado de tanta contradição para não “largar o osso” (vide Cid Gomes) é que o partido não vê saída para a crise – e por um motivo simples: ele próprio é a crise.

terça-feira, 17 de março de 2015

Por que insistir em pedir o impeachment?

Por Paulo Rio de Janeiro

O recado que os dois patetas trouxeram à nação a ninguém interessa ou merece atenção. Pacote anti-corrupção? Reforma política? Tão de sacanagem, só pode.

Como é que o mesmo partido que HOJE foi denunciado pelo PGR como tendo recebido mais de 130 (CENTO E TRINTA) MILHÕES DE DÓLARES de propina pode se declarar apto a baixar um pacote que combate a eles mesmos? 

A reforma política desejada pelo PT é uma que eles já praticam: financiar suas campanhas com dinheiro público. Aliás, fazem isto há bastante tempo! Estão zombando da nossa cara, com certeza. Cada mandato de deputado custa ao país, por deputado, por exemplo, quase 10 milhões. A Câmara, sozinha, 5 bilhões. Afinal, quem acha bom dar dinheiro pra esses caras? É uma piada, de mau gosto, sem dúvida. 

A verdade é que os dois meninos de recado vieram a público para dizer que a presidAnta IGNORA completamente o que as ruas estão dizendo, e que vai seguir, arrogantemente, com o projeto de poder do seu partido, do seu mentor e dela própria, e que quem não gostar, que se dane.

Fica cristalino, diante disto, que só o impeachment, pode resolver a crise política instaurada no país. E por que? O que justificaria o processo político?

Vamos lá, vamos ver alguns pontos:

a) O povo, em sua maioria, não mais a respeita. Onde a Dilma vai, a vaia vai atrás. Toda vez que abre a bocarra, recebe de volta um panelaço. A vontade popular é que ela saia, de preferência levando para bem longe seus correligionários, acólitos, apadrinhados e o restante da canalha. 

b) O povo - sempre ele - não engoliu o pacote fiscal porque entende que constitui estelionato eleitoral. Se tivesse sido sincera, aberto o jogo, teria sido analisado quem tinha a melhor proposta para enfrentar a crise. Ao contrário, ela mentiu, varreu a crise para baixo do tapete. Ela esqueceu de combinar com a economia, a matemática, a lógica e o mercado. Estes, a trouxeram de volta para a dura realidade, que já a fez declarar estar sem opções para combater. Fraude também é crime.

c) a roubalheira desenfreada e sistêmica, cujo volume conhecido é exorbitante, indecente e equivale a um autêntico genocídio, feita quase a céu aberto, vai se provar, espalhada em toda a administração pública, incluindo as estatais, os bancos públicos, as autarquias, e todo o resto. Não é crível, que a presidAnta, íntima conhecedora dos meandros da Petrobras e demais órgãos do governo, e da voracidade por dinheiro de seus pares, não tivesse conhecimento do imenso descalabro ocorrido na Petrobras, pra citar apenas um exemplo. Mesmo que assim o fosse, está muito claro que ela foi omissa, em ambos os mandatos, mantendo uma diretoria inteira suspeita, a tentar apagar-lhe as digitais dos desmandos. Isto é intolerável!

d) o PT tem associações imorais com notórias ditaduras e as favorece com perdões de dívidas, empréstimos secretos e outras benesses, em claro prejuízo para o erário publico e para os brasileiros. Isto constitui uma imoralidade e um achincale com quem busca o SUS e está morrendo com a seca. O PT não foi colocado no poder para ajudar bandidos internacionais a enriquecer.

e) A compra de Pasadena é um capítulo à parte, cujo enredo oficial se aproxima de uma história de terror, com o governo querendo nos fazer crer que a "anta" assinou autorização para a compra, sem ler, e que os prejuízos monstruosos não podem ser responsabilizados a ninguém. O nome disso é incompetência, incapacidade, irresponsabilidade e improbidade, que incorrem em prevaricação, ou seja, em crime contra a administração pública.

f) Apesar de se dizer amigo dos pobres, "nuncanestepaiz" o empresariado se deu tão bem. O empresariado companheiro, bem entendido. A caixa preta ainda não foi aberta, mas, antevê-se que o rombo no BNDES, com a drenagem de recursos públicos para os bolsos de amigos, quase sem custo, alcança cifras astronômicas, que vão transformar o gigante petrolão em trocado. Esta conta é, simplesmente, impossível de pagar.

g) a corrupção tornou-se um método e, alguns dos que foram pegos, apesar da demora, foram levados à cadeia. Ao entrar, ergueram os punhos, como se heróis fossem, e continuaram sendo tratados pelo partido desse jeito, em um claro desprezo à opinião pública e à Justiça

h) o governo se vale de todos os modos e maneiras de se manter no poder - declarou que o faria na campanha - e não se abstém de comprar parlamentares, financiar campanhas eleitorais por meio de verbas suspeitas, insistir em tentar calar os meios de comunicação e vozes dissonantes, entre outras faltas de republicanismo. Faz isso sob uma capa de democracia, mas, nos bastidores age contra ela. A quantidade de crimes neste item é um absurdo!

g) Dilma e Lula são maus governantes. É mentira que ela é uma "gerentona", sequer foi capaz de tocar uma loja de 1,99. Já Lula é apenas um parvo, um canalha que se beneficiou das bases econômicas legadas por FHC, de uma conjuntura internacional favorável, e nem isso soube aproveitar. Os erros de gestão de ambos são inúmeros, absurdos, geradores de prejuízos enormes ao Brasil. A multiplicação dos custos de obras públicas, que nunca terminam, que são mal planejadas, mal avaliadas, mal geridas, são um câncer a ser extirpado. O comprometimento, por exemplo, da refinaria Abreu e Lima, que teve seus custos de construção elevados de R$ 2 bilhões para R$ 20 bilhões, a transposição do rio S. Francisco e muitas outras serão uma fonte de prejuízos durante um longo tempo.

Poderia continuar elencando, indefinidamente, as razões pelas quais me posiciono entre os que consideram o impeachment uma necessidade. O Brasil precisa sair do jugo desta esquerda retrógrada, corrupta, canalha, arrogante, oportunista e espoliadora. Ou o Brasil acaba com o PT, ou o PT acaba com o Brasil. Podem contar com isto.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Rumo à alternância de poder

por Merval Pereira

O PT está indelevelmente ligado à corrupção, depois do mensalão e do petrolão. As manifestações de ontem foram, sobretudo, contra a continuidade do PT no governo, e a ampliação do alcance dos gritos de “Fora Dilma” indica muito mais a inconformidade de um eleitorado que foi enganado na campanha eleitoral do que uma tentativa golpista.

Se fossemos um país parlamentarista, o governo já teria sido derrubado. A maioria no Congresso existe apenas no papel, pois em todas as votações recentes o governo tem sido minoritário, mesmo quando consegue evitar que os vetos da presidente Dilma sejam derrubados.

Se a eleição presidencial fosse realizada hoje, Dilma não seria reeleita, apontam as pesquisas de opinião, que lhe dão também um apoio de apenas 7% da população. Se a percepção generalizada valesse, o Congresso teria condições de aprovar o impeachment, por que a maioria da população está convencida de que a presidente Dilma sabia o que estava acontecendo na Petrobras, mesmo que não tenha se beneficiado como pessoa física do dinheiro desviado.

Mas se beneficiou politicamente, desde a eleição de 2010. Como somos presidencialistas, até que se prove que a presidente Dilma sabia o que estava acontecendo, não há condições técnicas nem políticas para o processo de impeachment.

Mas a presidente já perdeu a legitimidade para governar, está desacreditada pela maioria da população, pois é generalizada a sensação de que desde que os partidos políticos passaram a nomear os diretores da Petrobras, quando ela era ministra das Minas e Energia, instalou-se oficiosamente na estatal sob a sua subordinação um esquema corrupto que agora está sendo revelado na Operação Lava-Jato.

Isso no governo Lula que marca, segundo o gerente Pedro Barusco, o momento em que a corrupção passou a ser institucionalizada na Petrobras, como parte de um projeto político de manutenção do poder.

Para recuperar a legitimidade política, teria que se reinventar, ser uma outra Dilma, o que parece impossível. Anunciar novos pacotes só vai aumentar a irritação do povo, enquanto a inflação alta e o crescimento negativo vão corroendo o poder de compra do cidadão.

Sendo assim, continuará governando, pois foi eleita legalmente, em meio a crises políticas e econômicas cada vez mais graves até que a eleição presidencial de 2018 permita a alternância de poder que por pouco não se deu em 2014 e é uma das bases da democracia. Isso se as investigações da Operação Lava-Jato não chegarem às provas contra ela antes da próxima eleição presidencial, ou se não perder as condições políticas de ficar à frente do governo.

domingo, 15 de março de 2015

Em meio a tudo isso, a saudade também está presente

Há 7 anos atrás, por volta das 6 da manhã deste mesmo dia 15 de março, morria a minha muito querida avó materna. "Voviginha", era assim que eu a chamava quando pequeno. Ela também era conhecida como "mamãe gande", termo cunhado pelo meu irmão André. Os demais netos a chamavam de "vó", ou "voroca", cada um procurando a forma mais carinhosa de tratar a velha senhora.

Séria, austera, solidária, amiga, companheira, um tanto irascível e turrona, dona de uma voz firme e poderosa, também sabia ser engraçada e bem humorada, e distribuir carinho, do seu modo.

Leitora diária de jornais e lúcida até o último dia, viveu bem informada e consciente de tudo à sua volta. Era capaz de sustentar qualquer conversa, sobre qualquer tema, e sempre tinha uma palavra de sabedoria para dar o seu interlocutor. Adorava conversar. Até hoje, de vez em quando me vem ao ouvido aquele jeito especial de falar, a maneira única com que pronunciava o meu nome.

D. Maria de Lourdes, d. Lourdes, d. Ninita, ou nenén, como meu avô, carinhosamente a chamava, tinha todos esses apelidos, mas, era uma pessoa ímpar, que cuidou de mim com todo desvelo de avó, nas doenças de criança, satisfazendo pequenos caprichos, como me presentear com revistas e gibis que fizeram a minha coleção chegar à casa das centenas, de me dar as minhas guloseimas preferidas e sempre tendo um gesto de preocupação comigo, assim como sempre foi, tenho certeza, com os meus irmãos.

Ninita dedicou ao marido sua vida e um amor, fidelidade, companheirismo, compreensão e carinho que jamais vi igual. Ela levou ao pé da letra, e com máxima seriedade, as promessas que fez para ele no altar.

Uma das cenas mais tocantes que presenciei sobre esta terra, que me emocionou profundamente, aconteceu um dia quando fui à casa dela, e os encontrei sentados à beira da cama, com meu avô já bastante consumido pelas muitas enfermidades que teve, a namorar, sentados um ao lado do outro, de mãos dadas, trocando beijos, suaves, amorosos, fraternos, e olhares, do mais puro e sincero sentimento. Eles não perceberam a minha presença e logo me retirei pois não queria interromper aquele momento sublime, que ficou marcado para sempre no meu coração. Aquela afinidade e afeto foram únicas e acho que hoje as pessoas já não são capazes de sentir daquela forma.

Minha avó viveu longos 97 anos, 4 meses e um dia. Quinze dias antes de sua morte, juntamente com alguns de meus filhos, eu lhe fiz uma visita, e tendo perguntado o que me diria sobre esta comprida jornada, ela, meio sem titubear, resumiu em 3 palavras: - passou muito rápido, Paulo Estêvão (que era o modo como me tratava).

Penso que ali ficou uma das maiores lições, entre as muitas que me deu. A vida passa muito rápido, e é para ser vivida com intensidade, alegria, amor ao próximo, dedicação, interesse, persistência, e um sorriso no rosto. É preciso sorrir, apesar dos desafios, das dificuldades, das incompreensões, da insegurança, da injustiça e das mazelas que assistimos no dia a dia. Os últimos anos da minha avó não foram muito felizes. Ela se sentia solitária e, de certa forma, incompreendida. Mas, até nesta hora mostrou força, dignidade e estoicismo. Deixou o mundo num sopro. Dormiu bem, acordou angustiada e se foi em 15 minutos.

Sinto saudades da minha avó. O mundo ficou mais triste no dia que ela partiu. Como ensinou, a vida continua passando rápido demais. Eu tento frear, mas, não tem jeito. Então, o negócio é continuar, resistir e tentar não desistir. O destino final está nos esperando, mas, é sempre bom lutar. Que seja um bom combate. E será inspirado nos exemplos que minha avó deixou que eu vou pra rua, pelo Brasil. Já dizia o poeta: quem sabe faz a hora, não espera acontecer.